“Empresas, academia e território”: o modelo UAlg TEC CAMPUS

Na edição deste mês de #IncubXdiscoveries, rumamos a Faro para conhecer o UAlg TEC CAMPUS, a aceleradora da Universidade do Algarve para empresas de tecnologias de informação, comunicação e eletrónica. Falámos com Hugo Barros, Coordenador Executivo do CRIA, a Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da universidade, sobre a ligação entre empresas e academia, as vantagens de um ecossistema compacto e os desafios de incubar no Algarve.
Este conteúdo está disponível em inglês.
– Como surgiu o UAlg TEC CAMPUS? Que tipo de projetos incubam?
Criado em 2004, o Centro Regional para a Inovação do Algarve (CRIA) objetivou a promoção da inovação e da transferência de conhecimento na região do Algarve, assente num modelo de tripla hélice. Em 2013, a UAlg consolidou as suas instalações de inovação e transferência de conhecimento numa incubadora dedicada, conhecida como UAlg TEC START, que é hoje membro acreditado da Rede Nacional de Incubadoras, gerida pela Startup Portugal.
A UAlg inaugurou em 2022 o UAlg TEC CAMPUS, uma instalação totalmente renovada dedicada à aceleração de PME no setor das Tecnologias de Informação, Comunicação e Eletrónica (TICE). Acolhendo sobretudo projetos de base tecnológica, a aceleradora propõe-se aproximar equipas empresariais, talento e investigação.
– Têm alguma área de especialização?
Hoje em dia, acolhemos empresas que trabalham em inteligência artificial, engenharia, desenvolvimento de software, saúde digital, agricultura de precisão, dados, comunicação, animação, entre muitas outras.
Mais do que especializar-nos num único setor, interessa-nos reunir empresas que reconhecem e apostam em conhecimento e tecnologia como estratégia para resolver problemas concretos. Essa diversidade acaba por ser uma das maiores riquezas da nossa comunidade, porque cria oportunidades de colaboração entre áreas que, à partida, poderiam parecer muito distantes.
– Em que consiste o vosso modelo de incubação?
O nosso modelo procura ir além da disponibilização de um espaço de trabalho. Claro que oferecemos escritórios, coworking, salas de reunião e um conjunto de serviços de apoio, mas aquilo que verdadeiramente distingue o UAlg TEC CAMPUS é a ligação que cria entre empresas, academia e território.
A proximidade à Universidade do Algarve facilita e potencia o contacto entre empresas, estudantes, investigadores e docentes. Em alguns casos traduz-se em estágios, bolsas de investigação ou projetos conjuntos, noutros, em mentorias, eventos ou partilha de conhecimento.
Existe também uma lógica de circularidade que consideramos muito importante: as empresas beneficiam de condições de instalação acessíveis e de um ecossistema de inovação ativo e, ao mesmo tempo, parte das receitas geradas pela utilização dos espaços é reinvestida em bolsas de doutoramento e outras iniciativas de apoio à comunidade académica.
– Conta-nos a história de uma startup que tenha marcado a incubadora. E onde é que a incubação convosco fez a diferença?
A Fly Moustache é um excelente exemplo de um percurso que acompanha o crescimento natural do ecossistema da Universidade do Algarve. O projeto começou numa fase muito inicial, configurando um dos vencedores do concurso de ideias de negócio (IDEIAS EM CAIXA) promovido pelo CRIA, tendo estado instalado na UAlg TEC START numa fase prévia de validação de ideia e de mercado.
Validado o conceito, a empresa cresceu as fronteiras da incubadora e encontrou no UAlg TEC CAMPUS as condições para consolidar e crescer a sua atividade, integrando de forma sistemática conhecimento e recursos qualificados formados na instituição.
– Qual é o fator diferenciador da vossa incubadora? Por outras palavras, o que é que vocês têm de único que potencia o sucesso das startups que incubam?
A meu ver, o principal fator diferenciador é, sem dúvida, a ligação às dinâmicas e aos centros de conhecimento da Universidade do Algarve.
Esta proximidade facilita o acesso a talento qualificado, quer através de iniciativas como o BrightStart, quer através de estágios, projetos académicos ou colaborações de investigação que vão surgindo de forma orgânica.
Há ainda uma vantagem muito própria do Algarve. Enquanto ecossistema relativamente compacto, existe uma enorme proximidade entre empresas, municípios, entidades públicas, centros de investigação e outros parceiros. Essa facilidade em criar ligações e abrir portas acelera processos e cria oportunidades que, em regiões maiores, tendem a ser mais difíceis de concretizar.
– A comunidade é um dos fatores que distingue uma incubadora de um centro de escritórios. Como cuidam da vossa e que planos têm para a tornar mais coesa e fértil?
Uma aceleradora só faz sentido se existir comunidade. É precisamente essa interação entre empresas que transforma um edifício num verdadeiro ecossistema de inovação.
Ao longo do ano promovemos regularmente iniciativas muito diferentes entre si. Algumas são de cariz mais técnico, como são exemplo as talks, workshops e sessões de partilha de conhecimento. Outras têm um carácter mais informal e um bom exemplo são as Tecaffè Sessions, onde convidamos os CEOs das empresas residentes a tomar o pequeno-almoço juntos e a conversar, de forma totalmente descontraída, sobre desafios, oportunidades ou dificuldades que estejam a enfrentar. Muitas vezes, é nessas conversas que surgem ideias, contactos ou soluções inesperadas.
Paralelamente, organizamos iniciativas como workshops de origami, aulas de dança, sessões de ginástica laboral, almoços partilhados e outras atividades que permitem que colaboradores de empresas diferentes se conheçam. Acreditamos que a inovação acontece mais facilmente quando existe confiança entre as pessoas.
– Quais são os principais desafios para a incubação, no vosso contexto concreto?
São múltiplos os desafios para a incubação e aceleração na região do Algarve, sendo que podemos salientar alguns desafios particulares.
O Algarve encontra-se em fase de phasing out da União Europeia, o que significa que a região subiu o seu nível de desenvolvimento e saiu da lista das zonas mais pobres da Europa. Não obstante, este denominado “enriquecimento estatístico” representa menos apoios diretos à região e às empresas.
Por outro lado, existe ainda uma baixa densidade populacional, que, pela amplitude da região, resulta usualmente num maior “espartilhar” dos recursos regionais, bem como maiores custos de contexto, como é o caso da habitação e da mobilidade, resultantes da sobre-especialização do setor turismo.
SOBRE OS #INCUBXDISCOVERIES
#IncubXdiscoveries é a rubrica mensal da Startup Portugal que vai ajudar-te a descobrir as incubadoras portuguesas. Que projetos incubam, como gerem a sua comunidade e que casos de sucesso tiveram e projetos futuros, são alguns dos temas abordados nestas entrevistas.
Se gostarias de conhecer melhor o UAlg TEC CAMPUS, porque gostarias de ver o teu projeto incubado nesta região ou porque queres estabelecer uma parceria, contacta a equipa da Startup Portugal através do e-mail incubadoras@startupportugal.com.
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