“Incubadora e venture studio”: construir de forma diferente na Build Up Labs

Na edição deste mês de #IncubXdiscoveries, conhecemos a Build Up Labs, uma incubadora e venture studio que cria as suas próprias startups e apoia as de outros fundadores. Falámos com Rui Gouveia, CEO da Build Up Labs, sobre a combinação dos dois modelos, a evolução para uma estratégia AI-native e o que é preciso para ajudar os fundadores a decidir melhor e a avançar mais depressa.
Este conteúdo está disponível em inglês.
– Como surgiu a Build Up Labs? Que tipo de projetos incubam?
A Build Up Labs nasceu como venture studio, criando os próprios produtos e startups a partir de ideias da equipa residente. Essa experiência deu-nos conhecimento muito concreto sobre o que significa validar uma oportunidade, construir produto, chegar ao mercado, formar uma equipa e lidar com os inevitáveis insucessos do percurso empreendedor.
Em 2020, criámos também a incubadora para partilhar esse conhecimento, as metodologias e a rede de investidores, experts, corporates e parceiros que fomos criando ao longo do tempo. Hoje, incubamos sobretudo startups tecnológicas e negócios digitais, de 24 nacionalidades, com ambição global. Acompanhamos os fundadores desde a validação do problema e da proposta de valor até ao produto, go-to-market, captação de investimento e internacionalização.
– Têm alguma área de especialização?
A nossa principal especialização são os negócios digitais e o software com focus especial em soluções IA. Temos experiência particular em inteligência artificial, modelos SaaS, go-to-market e fundraising.
A coexistência de uma incubadora e de um venture studio dá-nos uma perspetiva pouco comum. Sabemos acompanhar fundadores que trazem uma visão própria, mas também conhecemos por experiência direta o trabalho de construir uma empresa, tomar decisões com informação incompleta e manter disciplina operacional no longo prazo.
– Em que consiste o vosso modelo de incubação?
O modelo é personalizado e orientado à execução. Começamos por perceber o estágio, os objetivos e os principais riscos de cada startup. A partir daí, definimos prioridades e ligamos a equipa às nossas competências internas, aos mentores externos, parceiros e outros recursos de que realmente precisa.
Como não funcionamos em batches ou cohorts, em vez de aplicar o mesmo programa a todos, procuramos identificar o próximo milestone que reduz risco e cria progresso real. A comunidade faz parte do modelo: a aprendizagem entre pares e a proximidade de founders, especialistas e parceiros permitem resolver problemas de forma mais rápida e contextualizada.
– Conta-nos a história de uma startup que tenha marcado a incubadora? E onde é que a incubação convosco fez a diferença?
Há duas trajetórias que ilustram bem formas diferentes de evolução. A DIG-IN entrou na incubadora em 2023 e evoluiu da operação da Zomato em Portugal para uma empresa B2B de FoodTech, dados e inteligência artificial para o setor HoReCa e validou a expansão internacional através de pilotos em Espanha, Alemanha e Brasil.
A Intuitivo, incubada desde 2021, criou uma plataforma EdTech que ajuda professores a criar, corrigir e gerir avaliações. O percurso incluiu a participação na Techstars, vencer Web Summit, adoção rápida por professores e escolas e um contrato ligado à digitalização dos exames nacionais em Portugal, além do desenvolvimento de funcionalidades com inteligência artificial e da expansão internacional.
Em ambos os casos, a Build Up Labs contribuiu em diferentes momentos com discussão de produto e go-to-market, preparação para fundraising, acesso a investidores, candidaturas a incentivos, estratégia de IA, desenho de equipa e internacionalização.
O mérito da execução é dos fundadores; o nosso papel foi ajudá-los a testar decisões, abrir portas relevantes e avançar com mais contexto e foco.
– Falhar também faz parte do caminho. Qual a maior aprendizagem com algo que não correu bem?
No empreendedorismo, falhar é o resultado com maior probabilidade. A nossa principal aprendizagem foi que não conseguimos eliminar essa incerteza, mas podemos evitar erros recorrentes e demasiado caros.
Também aprendemos que persistência não significa insistir na mesma direção quando a evidência aponta para outro caminho. É preciso saber pivotar, testar cedo e transformar cada hipótese num ciclo curto de aprendizagem. E, antes de a pressão aumentar, é essencial alinhar os cofundadores sobre ambição, papéis, equity e formas de trabalhar.
A experiência como founders e incubadora ensinou-nos que entender o mercado, ter capacidade de adaptação e garantir alinhamento da equipa fundadora são mais importantes do que a qualidade inicial da ideia.

– Qual é o fator diferenciador da vossa incubadora? Por outras palavras, o que é que vocês têm de único que potencia o sucesso das startups que incubam?
O nosso diferencial é a combinação entre mentalidade de incubadora e capacidade de venture building. Não nos limitamos a aconselhar: compreendemos o trabalho de transformar uma oportunidade num produto, numa equipa e num negócio. Essa experiência real da nossa equipa permite conversas muito concretas sobre prioridades, trade-offs e execução.
Acompanhamos cada startup de acordo com o seu contexto, mobilizando competências em produto, tecnologia, marketing, vendas e fundraising quando fazem diferença. Ao mesmo tempo, ligamos os founders a uma comunidade nacional e internacional de empreendedores, mentores, parceiros e investidores. O objetivo é aumentar a capacidade da equipa fundadora para decidirem melhor e avançarem com maior velocidade e clareza.
– Que tipo de projetos ou startups estão agora à procura?
Procuramos founders com domain-knowledge sobre o problema que estão a resolver, disponíveis para testar os seus pressupostos e abertos a trabalhar em proximidade com a nossa equipa e a comunidade. O melhor fit tende a estar entre a fase de ideia e o pre-series A, quando ainda há decisões importantes sobre produto, mercado e modelo de negócio.
Estamos particularmente interessados em startups AI-native, que estejam a reinventar soluções existentes onde a inteligência artificial faz parte do produto e do modelo operacional desde o início, em vez de ser apenas uma funcionalidade acrescentada mais tarde.
– A comunidade é um dos fatores que distingue uma incubadora de um centro de escritórios. Como cuidam da vossa e que planos têm para a tornar mais coesa e fértil?
Um dos nossos principais momentos é o Founders Meetup mensal, no qual convidamos um parceiro para conversar com a comunidade sobre um tema concreto. Procuramos que cada encontro produza aprendizagem prática, discussão entre pares e relações que possam continuar para além de cada sessão, em vez de networking genérico. As bebidas e snacks são ofertas da casa.
Complementamos estes encontros com acompanhamento regular, partilha de oportunidades e introduções relevantes entre founders, mentores e parceiros. Queremos tornar esta rede cada vez mais intencional, aproximando pessoas que enfrentam desafios semelhantes ou mesmo estimulando parcerias entre as incubadas, ao mesmo tempo que respeitamos o tempo limitado de quem está a construir uma empresa.
– Quais são os principais desafios para a incubação, no vosso contexto concreto?
Um dos maiores desafios para as startups que acompanhamos é conseguir o primeiro investimento externo – o first-ticket, tipicamente entre os €25K e os €75K. É frequentemente o investimento mais difícil porque a empresa ainda tem tração limitada, mas os investidores procuram precisamente a prova de mercado, a equipa e os indicadores que esse capital ajudaria a construir. É uma “pescadinha de rabo na boca”.
O papel da incubadora é ajudar os fundadores a reduzir essa distância. Trabalhamos a narrativa, o modelo, as métricas, o data room e a preparação para reuniões, ajudamos a identificar o tipo de investidor adequado ao estágio e fazemos introduções quando existe alinhamento. Não prometemos financiamento; ajudamos as equipas a tornarem-se mais preparadas para investimento e a chegar às pessoas certas com uma proposta mais sólida.
– Querem partilhar connosco alguma novidade? Algum evento ou alguma iniciativa que devemos todos ter na nossa agenda?
A nossa principal novidade é a evolução para uma estratégia AI-native, tanto no tipo de empresas que queremos apoiar como na forma como nós próprios trabalhamos. A Rachel é uma concretização dessa estratégia: a assistente de inteligência artificial do Build Up Labs apoia a nossa equipa e as startups incubadas com follow-up contextualizado, descoberta de oportunidades, perks e recursos, coordenação operacional, pesquisa e acesso mais rápido a informação útil. A inteligência artificial liberta tempo para o valor acrescentado que vem com as sessões de mentoria personalizada.
Em paralelo, disponibilizamos publicamente o Startup Tools – ferramentas práticas e gratuitas que desenvolvemos para apoiar decisões concretas ao longo do percurso empreendedor: https://startuptools.builduplabs.com/
Inclui Founder Opportunities, uma base pesquisável de incentivos, pilotos, eventos e networking; um calculador de distribuição de equity entre cofundadores; simuladores de fundraising e de funil de unit economics; um framework de validação de ideias; e um assistente de marketing com inteligência artificial.
Até ao final do ano vamos ainda lançar um Marketplace para ajudar as startups a encontrar os seus primeiros clientes ou a criar parcerias comerciais com outras startups para conquistar novos segmentos de mercado. Mais novidades em breve.
SOBRE OS #INCUBXDISCOVERIES
#IncubXdiscoveries é a rubrica mensal da Startup Portugal que vai ajudar-te a descobrir as incubadoras portuguesas. Que projetos incubam, como gerem a sua comunidade e que casos de sucesso tiveram e projetos futuros, são alguns dos temas abordados nestas entrevistas.
Se gostarias de conhecer melhor a Build Up Labs, porque gostarias de ver o teu projeto incubado nesta região ou porque queres estabelecer uma parceria, contacta a equipa da Startup Portugal através do e-mail incubadoras@startupportugal.com.
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