Tales From The Ecosystem

BHOUT. O saco de boxe inteligente que imita uma luta real

BHOUT. O saco de boxe inteligente que imita uma luta real

por Ana Pimentel

Mauro Frota sonhou com um saco de boxe munido com inteligência artificial e não descansou enquanto não o desenvolveu. Primeiro na garagem de casa, depois em fábrica própria e, para o futuro, quer o mundo.

Este conteúdo está disponível em inglês.

 

Parece uma explicação metafórica, mas é literal: a ideia para a BHOUT surgiu num sonho que Mauro Frota teve em 2014. Um sonho que o empreendedor tentou com esforço ignorar, deixar escapar, mas que acabou por levá-lo numa busca incessante. Quando pesquisou na internet, percebeu que ainda não existia nada semelhante ao que imaginara. Seria então possível criar um saco de boxe inteligente, tal como lhe aparecia no sonho? Em agosto de 2021, aquilo que parecia apenas uma ideia abstrata tornou-se realidade.

“Sonhei que estava a bater num saco. E esse saco, no início, dava-me métricas, que é o que temos hoje na BHOUT. Mas, a determinado momento, o saco transformou-se numa pessoa, num alvo, que é o que estamos a desenvolver para a versão 3, um saco com ligação a óculos de realidade aumentada”, conta-nos no clube que abriu em Miraflores (Oeiras), um dos sete espaços que a marca tinha em atividade no verão de 2026.

A mente por detrás do primeiro saco de boxe inteligente do mundo é portuguesa, empreendedora e vive no corpo de um desportista nato. Mauro conta com 35 anos de ligação a artes marciais como Karaté, kickboxing, Muay Thai, Jiu-Jitsu, entre outros. Em 2005, abriu o seu primeiro negócio, os centros de fitness Evolution, de onde saiu passado seis anos. “Muito me orgulho de ter feito parte desse projeto. E, de alguma forma, na minha cabeça, sempre quis ligar estes dois mundos. Porque as artes marciais são talvez o estímulo mais funcional que existe para a longevidade humana”, diz.

Quando se rendeu ao sonho, teve de passar bastante tempo a aprender. Sendo um “non-tech founder”, debruçou-se primeiro sobre como seria o corpo de um saco com estas características, depois foi tentar perceber como funcionava o investimento em capital de risco, e tudo isto sem sair de casa. Durante seis anos, a BHOUT, que em 2023 viria a ser considerada pela revista Time como uma das 200 melhores invenções do ano, foi construída na garagem.

Nos primeiros dois anos, esteve a trabalhar na ideia sozinho. “Gastei todo o meu pocket money, todas as minhas reservas”, diz. Entretanto, juntou-se Pedro Barata, arquiteto de formação, para juntos começarem a desenhar as primeiras peças e a fazer as primeiras iterações do produto. Em seis anos, construíram o corpo do saco.

Quando saíram da garagem, foram para o Clube 7, em Lisboa, onde estiveram durante dois anos a fazer estudos de nudging sensorial, ou seja, a perceberem como poderiam usar a música e a luz para aumentar a motivação de quem está a treinar. Mas depois veio a pandemia de Covid-19, saíram do Clube 7 e avançaram para um espaço só deles na Avenida de Roma.

“Reunimos todas as nossas poupanças, eu e o meu cofundador, pedi uma segunda hipoteca da casa, mas só tínhamos dinheiro ou para os materiais de construção ou para a mão-de-obra. Não tínhamos para os dois. Obviamente que os materiais eram prioridade”, conta. Depois, com as próprias mãos e com a ajuda de amigos e parceiros, montaram tudo.

No momento em que conversámos, estavam inscritos nos clubes BHOUT mais de 3 mil utilizadores, numa média de 500 por clube. O de Avenida de Roma já é considerado um “clube maduro”. “Um clube tem dois anos até atingir a maturidade e depois tem tendência a estabilizar. Este clube onde estamos [o de Miraflores] já está perto dos 500 clientes ativos. Portanto, tudo indica que vai atingir as métricas dos outros. Eles têm o break-even muito rápido, ou na data de abertura ou logo no mês a seguir”, adianta.

O modelo funcionou e no verão de 2026, Mauro já estava a fechar contratos de Master Franchise dos clubes para o Brasil, Chile, Espanha, França e Alemanha, o que lhes permite escalar diminuindo os custos.

 

Mas, afinal, que startup é esta?

O clube onde tudo acontece de forma digital e que, além de um treinador por sessão, não emprega mais ninguém, foi a primeira peça do puzzle do negócio da BHOUT a ser encaixada, mas os planos vão mais além. Mauro quer criar todo um ecossistema que gire à volta do seu produto. Mas, antes, que produto é este?

É um saco multicamada, que em cada camada imita diferentes densidades dos tecidos humanos. “Imita uma pessoa do ponto de vista biológico”, explica o CEO. Conta com mais de 300 peças móveis, feitas para serem golpeadas, e combina sensores a uma visão de computador, o que lhe permite analisar um golpe em 300 milissegundos. Além disto, recorre a inteligência artificial: é o primeiro saco de boxe inteligente do mundo.

Com sensores na base e uma visão de computador no topo, o saco da BHOUT consegue saber em que zona o utilizador está a golpear, medir a precisão dos golpes e adaptar-se às características de quem o utiliza: sabe quanto mede, se é destro ou canhoto, o nível de cansaço, a força e a velocidade com que treina. “E agora, com a versão 3, começa a medir, finalmente, a técnica biomecânica de cada golpe”, revela Mauro. Além disso, já tem um hardware que permite ligação a óculos de realidade aumentada.

Com este tipo de tecnologia, o saco da BHOUT permite imitar aquilo que é, na prática, uma luta real, sem as pessoas se magoarem ou sem o saco bater de volta. À medida que o treino vai sendo feito, os golpes vão sendo transformados em pontos e o treino funciona como se fosse um jogo, onde as pessoas podem ver em tempo real os pontos que têm. No final da sessão, cada utilizador tem na app o lugar que ocupa nos rankings. Em 2025, a startup lançou os BHOUT Games, que Mauro considerou “um sucesso” e que já levou o empreendedor a sonhar acordado com jogos entre seleções de várias nacionalidades.

Todas estas funcionalidades são processadas no próprio saco, daí também a complexidade do produto. “Por isso é que conseguimos processar um golpe em 300 milissegundos. Não vamos dar feedback, obviamente, em 300 milissegundos, porque seria muito feedback para conseguirmos processar. Mas vamos analisar um cluster de técnicas e dar feedback sobre essas técnicas, como um treinador humano faria”, explica.

Com a versão mais recente, o hardware está pronto para vários desenvolvimentos. Uma das coisas que o empreendedor ambiciona é que o saco aprenda a fazer coaching, como um humano. “Criámos uma coisa que se chama BHOUT Behavioral Change Matrix, que reúne as quatro mais importantes linhas de investigação na área da psicologia e mudança comportamental. É assim que os nossos coaches humanos são formados e é assim que o nosso coach de inteligência artificial está a ser treinado”, diz.

O objetivo é o de que este treinador não humano consiga analisar gestos biomecânicos e dar feedback, ensinar golpes não só de boxe, mas também de outras artes marciais, visto ser um saco capaz de medir não só golpes de punho, mas também de cotovelo, joelho e pontapés. Tudo para que seja possível alugar um saco fora do horário das sessões, que permita a qualquer pessoa aprender a técnica.

E é tudo digital. Através da app do clube, as pessoas compram uma sessão, reservam lugar, abrem a porta do clube, abrem e fecham o cacifo, e ligam-se ao saco. Um clube maduro tem em média 12 sessões por dia, um coach por sessão e está aberto das 7h às 22h. Além dos clientes e treinadores, há uma equipa de limpeza duas vezes por dia.

No meio de tudo isto, está o saco, que é o centro do ecossistema BHOUT, mas a visão de longo prazo é que o mesmo hardware sirva a vários mercados. “A tecnologia não se esgota aqui”, conta. A próxima fase passa por desenvolver o software, melhorar os algoritmos de inteligência artificial e criar novidades com estes recursos.

 

Da ideia à realidade, o que é preciso?

O primeiro investimento externo chegou à startup portuguesa em 2022, vindo diretamente de business angels. No ano seguinte, receberam outro financiamento, já com alguns investidores em capital de risco. Depois, levantaram uma ronda seed só com capitais de risco no valor de 10 milhões de euros, a maior realizada em Portugal até esse momento. Participaram nesta ronda os fundos portugueses Lince Capital e Explorer Investments.

Além de desenvolverem o produto, também tiveram de o produzir. “Depois de fazermos um saco, percebemos que não conseguíamos industrializar o processo com uma empresa externa, porque não havia máquinas para fabricar este produto em particular”, conta o CEO. Por isso, fizeram uma parceria com outra empresa, que os ajudou a desenvolver a maquinaria, e montaram uma fábrica própria em Leiria.

No verão de 2026, os tempos eram de mudança. Como startup de hardware que é, a BHOUT precisou de muito capital para montar a fábrica, fazer nascer e crescer o saco de boxe, produzi-los e abrir os clubes. “Tudo isto tem um custo de implantação muito superior a uma startup de software”, revela. Como um clube sozinho não prova uma tese, investiram em mais cinco.

Além do vertical dos clubes, a startup portuguesa está a apostar noutro, o do B2B, ou seja, quer vender a grandes empresas, grandes cadeias de ginásios ou a redes hoteleiras. Uma das primeiras empresas a contactar os empreendedores foi o LinkedIn: queria pôr sacos nos escritórios que têm no Dubai. Os hotéis Marriott fizeram o mesmo. E há um dia em que Mauro recebe um telefonema do manager do jogador de boxe Jake Paul e foi assim que a BHOUT se tornou parceira da Netflix na luta entre Mike Tyson e Jake Paul.

A ambição é muita e passa sobretudo pelo mercado norte-americano, onde ainda não entraram porque é “demasiado importante” para correrem o risco de falhar. “É o maior mercado do mundo, com 200, 300 milhões de consumidores e com uma penetração em fitness que superou recordes em 2026, ultrapassou a barreira dos 20% de americanos que consomem fitness”, adianta. Para avançar com todos estes objetivos, tiveram de reestruturar o negócio e rescindir contratos com alguns colaboradores, cujas funções já não são necessárias, visto o desenvolvimento de hardware ter ficado concluído.

“Estamos literalmente à procura da sustentabilidade da empresa, para não dependermos tanto de investidores externos”, revela. Não põe de parte o investimento em capital de risco, mas querem fazê-lo de forma diferente, porque já não estão na fase de vender o sonho. “O sonho está vendido, a empresa e o produto são uma realidade. Agora os investidores pedem-nos uma empresa diferente, com métricas. Estamos neste momento de inflexão e o nosso foco passou a ser muito mais software e vendas”, conclui. Quem sabe, um dia, será possível ter um saco de boxe inteligente em casa e aprender golpes com o avatar de Mike Tyson.

 

 

SOBRE TALES FROM THE ECOSYSTEM

Todas as startups começam com uma pessoa e um problema que não conseguiu ignorar. Em Tales From The Ecosystem, fazemos duas perguntas a fundadores portugueses: afinal, que startup é esta? E o que foi preciso para passar da ideia à realidade? As respostas levam-nos da primeira faísca ao modelo de negócio, às rondas de investimento e aos mercados que ainda estão por vir, contadas pelas suas próprias palavras.

Tales From The Ecosystem

Startup Portugal Team • Outubro 15, 2026

Partilhar