Usawa. Cuidados de saúde à distância de uma mensagem

por Ana Pimentel
Basta uma mensagem por WhatsApp para que a inteligência artificial da Usawa ligue uma criança a um pediatra. A ambição da plataforma portuguesa é chegar a todas as pessoas do mundo e a todas as especialidades.
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Quer dizer “igualdade” em suaíli, mas a sua missão não precisa de guia ou de intérprete. Com a Usawa, Luís Almeida Fernandes, engenheiro de formação, sonha alto: quer levar os melhores cuidados de saúde a todas as pessoas do mundo. Demasiado utópico? Para o empreendedor português, não, sobretudo porque, para lá chegar, junta médicos, experiência clínica e hospitalar à inovação da inteligência artificial. Como ponto de partida, começou por levar cuidados pediátricos a crianças através de um chat. E, para isso, basta uma mensagem no WhatsApp.
“A Usawa quer a igualdade de direitos. E isto tem muito a ver com os anos que passei no Quénia, porque lá há um deserto completo de cuidados especializados. É um país, se calhar, com 46 milhões de pessoas, das quais metade são crianças, e que tem menos de 500 pediatras. Portugal, com 1,7 milhões de crianças, tem 2.300 pediatras”, conta-nos o fundador.
Na memória de Luís, há uma experiência em específico que ilustra o problema: a jovem irmã de uma empregada queniana que morreu com o que a família disse tratar-se de uma “gastrite”, mas sem confirmação médica do diagnóstico, porque a jovem nem sequer chegou a ir ao hospital. O acesso aos cuidados de saúde é tão difícil no Quénia que as pessoas morrem em casa de causas desconhecidas, sem sequer perceberem se há tratamento que evite tal desfecho, explica.
O empreendedor português não conseguiu ficar indiferente. Com uma carreira profissional marcada pela experiência internacional, Luís Almeida Fernandes chegou a um ponto na vida em que quis fazer mais por estas pessoas do que pelas grandes consultoras em que trabalhou. Depois de mais de 15 anos de experiência como partner na McKinsey, nos escritórios de Nova Iorque (EUA) e de Nairóbi (Quénia), a trabalhar o mercado da saúde digital, regressou em 2022 a Portugal para integrar o Serviço Nacional de Saúde (SNS), onde liderou o SNS 24 e o Centro Nacional de TeleSaúde, porque já nessa altura queria servir as pessoas.
A experiência durou seis meses. A vontade de mudar a saúde e a velocidade e o ritmo que caracterizam os processos de inovação não fizeram o match perfeito com aquilo que são os procedimentos (necessários, sublinha o fundador) inerentes ao serviço público.
“Cheguei à conclusão de que quando são coisas inovadoras faz mais sentido fazer fora e depois integrar. O setor público não está desenhado como uma máquina de inovação, nem deve estar. Deve ser uma máquina de seleção de ferramentas úteis para as pessoas. E aí percebi que, se calhar, consigo trazer mais valor às pessoas cá fora do que lá dentro”, explicou. O desejo, no entanto, continua lá: o sonho é, um dia, a Usawa fazer parte da realidade de todos os portugueses.
Mas, afinal, que startup é esta?
A Usawa é uma clínica digital, cuja interação entre médico e paciente ocorre via WhatsApp. Entre os dois está um sistema de inteligência artificial, treinado especificamente para este efeito, que faz as perguntas iniciais, recolhe as respostas e elabora um relatório detalhado para o médico, já com possíveis recomendações de diagnóstico e terapêuticas.
Após receber este relatório, o profissional tem livre-arbítrio: pode pedir ao agente que faça mais perguntas ao paciente e que volte a analisar essa informação; pode discordar das recomendações sugeridas, elaborar um diagnóstico diferente ou mudar a terapêutica (ao fazer isto, também treina e melhora o agente); ou pode concordar e avançar com as sugestões. A decisão é sempre do profissional de saúde.
Para iniciar esta abordagem, Luís Almeida Fernandes focou-se primeiro nas crianças e nos pediatras. Foi com esta solução que se lançou no mercado. A segunda especialidade que decidiu atacar foi a faixa etária pós-40, com foco no envelhecimento saudável, mas, passo a passo, o objetivo é levar a tecnologia para todas as áreas da saúde e idades.
No momento em que conversámos, no verão de 2026, a Usawa tinha 23 pediatras a trabalhar na plataforma e 11 mil crianças registadas, que faziam uma média de 1000 a 1500 consultas por mês. Cobriam todo o território nacional. Além disso, estavam a fazer um teste piloto com uma seguradora, a Médis, para que este serviço fosse aí integrado e abrangesse um mercado de 10 mil famílias, o que nos leva ao modelo de negócio. Afinal, quanto é que tudo isto custa e quanto dinheiro gera?
A Usawa funciona com uma modalidade gratuita (da qual Luís Almeida Fernandes não abdica), acessível a qualquer residente em Portugal, que funciona num horário mais reduzido e na qual os médicos estão disponíveis apenas para situações agudas. Depois, tem uma versão paga (subscrição mensal de 10 euros no momento em que conversámos) com horário de atendimento alargado, tempo de espera reduzido, acesso a pediatras especialistas, a consultas de acompanhamento e apoio aprofundado em sono e alimentação. Este é o segmento direcionado ao consumidor.
Mas a grande aposta da Usawa não está aí, está no mercado corporativo, ou seja, nas seguradoras e hospitais. Não é, então, de estranhar que o grande mercado-alvo da startup portuguesa sejam os EUA, que “têm os melhores hospitais pediátricos do mundo”, como nos explica o fundador. No momento em que conversávamos, a Usawa estava já em contacto com quatro: o Boston Children’s Hospital, o Children’s Hospital of Philadelphia, o Lurie Children’s Hospital of Chicago e o Children’s Hospital Los Angeles.
Do lado de lá do Atlântico, o plano de ataque segue outra tática: o negócio é proposto diretamente aos hospitais e clínicas associadas, e a tecnologia é levada até aos pediatras, incluindo os de especialidade. Isto para que, no decorrer de uma consulta de pediatria geral, o médico possa pedir, rapidamente, a um colega especializado noutra área para que faça o seguimento da consulta, recebendo na hora o relatório com toda a informação sobre aquele paciente. Tudo isto acontece por via digital, com a ajuda da inteligência artificial, mas se for necessário uma consulta presencial, eles próprios fazem esse encaminhamento. “Estão muito interessados, são instituições de referência e é um luxo poder estar a conversar com eles”, conta-nos o fundador.
O interesse nos EUA não é por acaso: o mercado de saúde americano representou, em 2025, cerca de 18,5% do PIB do país. “É o maior mercado do mundo, não há mais nada igual. E até chegarmos a um ponto em que eu diga que faz sentido ir para outro país, para a Alemanha ou França, vão passar uns cinco ou dez anos, porque há muita coisa por fazer lá”, diz. Já Portugal, admite o fundador, é um mercado sobretudo de “impacto”, mas a ideia é continuar a “crescer, crescer, crescer”.
No Quénia, o país que fez com que o empreendedor olhasse para o problema do acesso aos cuidados de saúde, também já há uma instituição Usawa lançada, mas à data da nossa conversa ainda não estava em funcionamento: o CEO ainda estava a recrutar a equipa queniana. No Peru, onde a startup venceu os Global eAwards 2025 (promovidos pela organização internacional NTT Data Foundation), Luís estava em contacto com uma fundação que trabalha com os povos indígenas que vivem nas montanhas do país, para poderem dar-lhes acesso à tecnologia.
Da ideia à realidade, o que é preciso?
Para que tudo isto seja possível, é preciso que o trabalho de desenvolvimento tecnológico não esmoreça, conta-nos o fundador. Para a consulta ocorrer no WhatsApp, foi necessário redesenhar tudo o que envolve uma consulta clínica, usando ao máximo os recursos tecnológicos. Como? Treinando agentes de inteligência artificial. Assim, reuniram um conjunto grande de fichas clínicas (têm centenas de fichas por doença), que integram aquilo que são as melhores práticas clínicas portuguesas.
Com base nestas fichas, treinaram o agente para fazer apenas perguntas aos pacientes, que desta forma “nunca entra em risco clínico”, garante Luís. Isto foi fundamental para o desenvolvimento da tecnologia, explica. “Porque esse era o principal risco. Se houvesse uma recomendação feita diretamente aos pais, então havia um problema, porque tudo o que acontece tem de ser aprovado pelo médico”, sublinha.
Feitas as perguntas e recolhidas as respostas, há outro agente de inteligência artificial que prepara o relatório com possíveis diagnósticos e recomendações e o entrega ao médico. Depois, a decisão é só dele. Atento a todas as decisões, este agente guarda a informação e depois usa-a para se treinar a si próprio e ir melhorando.
“É preciso imenso cuidado ao fazer coisas de inteligência artificial em saúde. O que queríamos garantir no desenho macro da solução era que não havia nada clinicamente relevante a acontecer na consulta sem que houvesse um médico a dizer que é aquilo exatamente que deve acontecer.”
Luís Almeida Fernandes, fundador da Usawa
A missão foi a primeira coisa a aparecer na mente do fundador, depois surgiu a ideia de como torná-la realidade, somado a isto havia a tecnologia, mas, para avançar verdadeiramente, e para contratar pessoas, era preciso outra coisa: capital. Nesse campeonato, Luís conta que teve uma “sorte enorme”.
Num ano e meio de existência (a startup foi fundada em 2024), a Usawa conseguiu angariar mais de 200 mil euros em prémios que recebeu: 120 mil euros por terem vencido uma das categorias do prémio Lisboa Innovation for All, promovido pela Câmara Municipal de Lisboa e pela Unicorn Factory; 100 mil dólares oriundos do prémio internacional do NTT Data; e 10 mil dólares pelo concurso em Portugal.
“A segunda sorte” que tiveram, conta o fundador, foi o encontro com dois investidores com “uma missão social fortíssima”: a Fundação AGEAS, que entrou com 150 mil euros na empresa, e um investidor anjo “que está absolutamente apaixonado pelo que fazemos e pelo que trazemos ao mundo” e, entre risos, acrescenta: “que sou eu”. “Já era angel investor antes e continuei a ser”, conta.
No momento em que conversámos, a Usawa estava a fechar uma nova ronda de investimento, sobre a qual Luís ainda não podia falar muito, mas que serviria para cumprir com os objetivos da startup. “Fica aqui a nota de que não é para agora, mas tenho uma ambição enorme de pôr isto dentro do SNS. Aliás, acho que onde isto encaixa bem é sendo uma ferramenta de acesso dentro do SNS 24”, conclui. Não esquecer que Usawa quer dizer “igualdade”, lembra-se? Cuidados de saúde acessíveis a todos.
SOBRE TALES FROM THE ECOSYSTEM
Todas as startups começam com uma pessoa e um problema que não conseguiu ignorar. Em Tales From The Ecosystem, fazemos duas perguntas a fundadores portugueses: afinal, que startup é esta? E o que foi preciso para passar da ideia à realidade? As respostas levam-nos da primeira faísca ao modelo de negócio, às rondas de investimento e aos mercados que ainda estão por vir, contadas pelas suas próprias palavras.
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