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Surf REC. A startup portuguesa que captou a atenção de um primo de Elon Musk

Novembro 5, 2026

por Ana Pimentel

Afonso Maya e José Ribeiro Ferreira criaram um sistema automatizado de filmagens de ondas que vai permitir aos surfistas amadores terem coaching online. Conheça a história.

Este conteúdo também está disponível em inglês.

 

Afonso Maya queria ser piloto. Faz parte da família com mais gerações de pilotos no mundo, começou a voar aos 17 anos e aos 21 estava pronto para se candidatar a uma vaga na TAP. Mas uma mudança na regulamentação trocou-lhe as voltas: um problema de visão cromática vedou-lhe a carreira a bordo de aviões. A partir daí, fez de tudo um pouco, trabalhou em várias áreas, mas houve uma coisa que se manteve constante ao longo da vida, o surf.

O fundador da Surf REC, startup portuguesa que quer revolucionar a videoanálise e treino dos surfistas, começou a surfar com 13 anos, na Praia de Carcavelos. Quando tinha pouco mais de 40, percebeu que já tinha trabalhado em quase todas as áreas, menos naquela de que gostava mais e onde conhecia mais pessoas. Uma vez instalada a semente da reflexão, foi impossível travar-lhe o crescimento. Em 2013, decidiu que queria criar uma solução para um problema que os surfistas tivessem. E que isso seria a sua nova vida profissional.

A ideia surgiu-lhe enquanto cozinhava – o que poderia fazer para permitir que os surfistas amadores, como ele, evoluíssem na sua técnica? Por esta altura, a videoanálise entrava em força em vários desportos e o surf não era exceção: ao verem-se a surfar, os atletas profissionais (e os seus treinadores) podiam ver o que estavam a fazer bem, mal e onde poderiam melhorar. Mas os amadores, por vários motivos, raramente se viam a surfar e chegavam a um momento em que não conseguiam evoluir mais.

Para contornar esta realidade, Afonso começou a testar ideias. Primeiro, criou um serviço de filmagem, o Camera Boy, e foi para a praia filmar surfistas amadores, mas os desafios que foi tendo fizeram-no perceber que o caminho não era por ali. Em 2021, teve a sua “segunda epifania”: se criasse um sistema automatizado de filmagens, alguns dos constrangimentos detetados ficariam resolvidos. Foi nessa altura que Paulo Alvito, com muita experiência na área da robótica, se juntou ao projeto como cofundador e começou a desenvolver uma solução que permitisse automatizar filmagens de ondas.

Enquanto tudo isto ia acontecendo, José Ribeiro Ferreira surfava de forma profissional e ia-se cruzando com Afonso na praia. “Zé”, como é tratado pelo amigo, competiu em provas de surf nacionais e internacionais dos 10 aos 26 anos e, por isso, teve acesso direto a treinadores especializados, a filmagens das ondas e a receber feedback técnico constante. Estava do outro lado da barricada e as diferenças na evolução do surf de ambos eram evidentes. Quando Zé deixou a competição, cofundou a Wave by Wave, uma associação sem fins lucrativos que fazia intervenção terapêutica baseada no surf direcionada a crianças e jovens em risco. E depois disso foi estudar Gestão para a Nova SBE.

Em 2023, aquele que viria a ser o CEO da Surf REC recebeu o telefonema que lhe mudaria os planos para o futuro: Afonso Maya queria que ele o ajudasse numa dúvida relacionada com associações e, quando lhe falou do projeto em que estava a trabalhar, Zé soube que tinha de fazer parte. Tudo fazia sentido. “Isto é simples, é básico: a pessoa vê-se filmada por um robô, pega nas filmagens e analisa-as com um treinador. Isto vai ser o futuro”, conta-nos. Afonso acrescenta: “Sempre estive à procura de um CEO. Normalmente, os fundadores são quase todos CEO, mas acho que essa tendência muitas vezes é desastrosa”. Bastou o telefonema certo para encontrar quem ficasse na gestão do projeto.

Quando conversámos no verão de 2026, na Praia de Carcavelos, a Surf REC já era uma realidade. Ao nosso lado, estava o quiosque com as câmeras de filmagem e os cacifos com as pulseiras. Nos telemóveis dos surfistas, já estava o acesso à plataforma com as filmagens de quem surfa naquela praia. E, no TikTok, um post de um rapaz brasileiro, que trabalha num restaurante da praia de Carcavelos e filmou o quiosque, viralizou e encheu a caixa de email dos fundadores com pedidos de várias partes do mundo.

 

Mas, afinal, que startup é esta?

Com as filmagens, a Surf REC quer levar o coaching online a todos os desportos de onda – o desportista está no sofá, numa chamada com o treinador, e recebe feedback com base nas filmagens que recebeu no telemóvel. Para que isso aconteça, são precisas três coisas: câmaras robotizadas, pulseiras com tecnologia GPS que seguem o surfista, e uma plataforma tecnológica onde o utilizador tem acesso aos vídeos e aos treinadores.

Primeiro, tiveram de superar o desafio das câmaras robotizadas. “Tivemos de desenvolver um sistema que pudesse seguir consistentemente surfistas dentro de água, com luz, sem luz, com ondas grandes, pequenas, quando a maré está cheia ou vazia e que fosse consistente. Esse foi o nosso primeiro grande desafio”, conta o CEO.

No verão de 2026, quem fosse surfar à Praia de Carcavelos ou à de Ribeira d’Ilhas, na Ericeira, já podia aceder às suas filmagens. Chegava ao quiosque da Surf REC, criava uma conta de utilizador no tablet que lá está para o efeito, a porta de um dos cacifos abria-se automaticamente e o surfista retirava de lá a pulseira que teria de usar enquanto estivesse no mar, sem restrição de tempo. Quando terminasse, devolvia a pulseira ao cacifo e, dois minutos depois, teria as filmagens na sua conta de utilizador, no telemóvel. O serviço custava 0,25 euros por minuto / 15€ por hora.

Com os vídeos na sua posse, os desportistas podiam pegar neles e mostrá-los a um treinador à sua escolha, para receberem feedback. No momento em que conversámos, a equipa estava a desenvolver a plataforma onde os treinadores se poderiam inscrever para dar treinos à distância aos surfistas, com base nos vídeos. Trata-se, no fundo, de um marketplace de online coaching, cuja missão também passa por alargar a fonte de receitas de quem vive do treino de surf, porque já não fica dependente de uma praia. “Um treinador em Carcavelos pode ter um foco de pessoas em França ou na África do Sul”, explicam.

Mas a ambição não se fica por aqui. “Temos uma ótima fonte de dados, porque temos uma tecnologia proprietária e muitos vídeos. Agora, queremos transformar estes vídeos em dados quantificáveis e ensinar a uma sistema de machine learning o que é uma remada, o que é uma onda para a direita, o que é um tubo, etc. […] Esta é a terceira camada do nosso negócio, que é transformar dados em insights desportivos, que já está a ser feito. É uma tendência transversal em vários desportos e nós estamos a liderar esse movimento no surf”, explica o CEO José Ferreira.

Nos quiosques de Carcavelos e de Ribeira d’Ilhas há 16 cacifos e seis câmaras. Cada câmara está dedicada a seguir uma pulseira, mas no futuro a ideia é que possa seguir duas pulseiras diferentes, permitindo 12 filmagens em simultâneo na mesma praia. O próximo passo é instalar mais oito quiosques em praias portuguesas, noutras localidades, e depois querem avançar com um modelo de franchising. “Já temos bastante interesse tanto nacional como internacional. No outro dia, passou aqui [no quiosque de Carcavelos] um miúdo brasileiro, fez um TikTok ao quiosque e nós recebemos 50 e-mails de 50 pessoas de 15 países diferentes a pedirem-nos para expandir”, revela o CEO.

 

Da ideia à realidade, o que é preciso?

Quando, em 2023, Zé se juntou à equipa de cofundadores, quer ele quer Afonso ainda mantinham outros empregos e trabalhavam na Surf REC paralelamente, no tempo livre. Quando chegaram a um protótipo da câmara que os satisfazia e que comprovava a tese do negócio, foram à procura de investidores. Falaram com vários business angels, até que chegaram aos quatro nomes que tiveram “coragem de investir na sua startup, contam: dois portugueses, um francês, e um norte-americano.

Chegaram ao investidor americano através do francês Arthur Moreno. No dia da reunião, apresentaram-se no escritório sem saberem ao certo com quem iriam reunir e o potencial investidor aparece “com uma barba comprida, de chinelos, calção, com um ar assim outsider, super interessado no pitch, foi a pessoa que fez mais perguntas”, recordam os cofundadores. Até que, no final da reunião, Arthur Moreno lhes explica quem ele é: Peter Rive, cofundador da SolarCity e primo de Elon Musk. Em 2016, a SolarCity foi comprada pela Tesla por 2,6 mil milhões de dólares.

As perguntas e o interesse de Peter Rive não foram ao acaso e os empreendedores conseguiram fechar o investimento. Desta ronda, saíram 165 mil euros, em 2024, que usaram para criar as várias infraestruturas de software, montar os sistemas de filmagem e dos cacifos inteligentes e para trazer a quarta cofundadora para a equipa, Maeva Plasse. Os cacifos foram produzidos por uma empresa portuguesa de metalomecânico, em Aveiro, a robótica foi feita com a equipa da IDMind, outra empresa de Paulo Alvito, e para o software contrataram em outsourcing.

No momento em que conversámos, a Surf REC estava a tentar fechar mais uma ronda de investimento de 600 mil euros. Os fundadores já tinham 70% desse montante garantido através de um fundo, mas faltavam-lhes cerca de 200 mil euros. “Estamos à procura de Business Angels, que possam trazer recursos estratégicos, pessoas que tenham visão, contactos institucionais e se tiverem contacto com o surf, melhor”, explica o CEO.

A ronda servirá para implementar a estratégia de vendas junto dos surfistas, mas também junto de empresas como escolas de surf e hotéis que queiram ter um quiosque Surf REC; para testar o modelo de franchising em Portugal, para depois escalar para a Europa e para o mundo. Graças ao TikTok do rapaz que mostrou o quiosque da Praia de Carcavelos e que tem cerca de 10 mil seguidores, os fundadores receberam contactos oriundos de países como Marrocos, Indonésia, EUA, França, Espanha ou Japão. “Ainda ontem recebemos um pedido da Austrália”, contam.

Um dos próximos objetivos dos fundadores também é avançar com o teste piloto à plataforma de online coaching. “Já temos várias parcerias com treinadores, com quem temos estado a trabalhar, e agora é criar a plataforma”, revela o CEO. De início, a ideia é criar uma lista de treinadores, devidamente identificados com as ondas geográficas, especializações, feedback dado por outros utilizadores e pontuações, e permitir que os surfistas se conectem com o treinador que preferirem. Depois, têm duas modalidades: ou marcam uma sessão onde conversam sobre as ondas, técnicas e melhorias com o treinador; ou enviam as filmagens e recebem comentários do treinador, com sugestões de pontos a melhorar.

No dia em que conversámos, a Surf REC já contava com um total de 750 contas de utilizadores criadas nos dois quiosques, em funcionamento há muito pouco tempo, devido aos estragos provocados pelas tempestades que assolaram o país no inverno de 2026. Dessas 750 contas, 300 fizeram uma sessão de surf ou mais. Afonso Maya não está aos comandos de um avião, mas quer pôr os surfistas amadores a voar.

 

 

SOBRE TALES FROM THE ECOSYSTEM

Todas as startups começam com uma pessoa e um problema que não conseguiu ignorar. Em Tales From The Ecosystem, fazemos duas perguntas a fundadores portugueses: afinal, que startup é esta? E o que foi preciso para passar da ideia à realidade? As respostas levam-nos da primeira faísca ao modelo de negócio, às rondas de investimento e aos mercado que ainda estão por vir, contadas pelas suas próprias palavras.

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