“O problema como oportunidade”: a tese da UBImedical

Na edição deste mês de #IncubXdiscoveries, damos destaque à UBImedical, uma incubadora criada na Universidade da Beira Interior com a missão de valorizar o conhecimento científico e tecnológico nas áreas da saúde e ciências da vida. Falámos com a Doutora Dina Pereira, Diretora Executiva da UBImedical. A UBImedical tem na direção a Vice-Reitora para a Investigação, Inovação e Desenvolvimento, Professora Sílvia Socorro.
Este conteúdo está disponível em inglês.
– Como surgiu a UBImedical? Que tipo de projetos incubam?
A UBImedical surgiu no seio da Universidade da Beira Interior com a missão de valorizar o conhecimento científico e tecnológico nas áreas da saúde e ciências da vida. Nasceu da necessidade de criar uma ponte efetiva entre a investigação académica e o mercado, apoiando a transformação de ideias inovadoras em soluções com impacto real. Incubamos projetos e startups de base científica e tecnológica, desde a fase da ideia, early stage e acompanhamos até à entrada no mercado e scale-up. Para além de projetos na área da saúde e ciências da vida, investimos forte em incubar startups ligadas ao deeptech e à área de inteligência artificial, áreas científicas fortes na Universidade da Beira Interior.
– Têm alguma área de especialização?
A UBImedical é especializada em dois verticais, nas áreas de life sciences, englobando biotecnologia, pharma, dispositivos médicos, digital health e medtech, e nas áreas da inteligência artificial.
– Em que consiste o vosso modelo de incubação?
A incubação na UBImedical pode ser feita em 3 vertentes: virtual, co-work (escritório partilhado com outras empresas) e presencial (escritório e/ou laboratório próprio). Em qualquer uma destas vertentes oferecemos mentoria especializada, acesso a infraestruturas laboratoriais e tecnológicas, acesso aos nossos programas de aceleração, ligação a investigadores, acesso a uma rede de investidores e parceiros estratégicos, bem como apoio/consultoria na validação tecnológica, regulatória, propriedade industrial e de mercado. Trabalhamos de forma personalizada, ajustando o acompanhamento à fase de maturidade e às necessidades de cada projeto.
– Conta-nos a história de uma startup que tenha marcado a incubadora? E onde é que a incubação convosco fez a diferença?
Depois de mais de uma década de investigação e trabalho na área das neurociências, a NeuroSoV (Fastprinciple, Lda.) foi fundada em 2020 por uma equipa motivada pela ambição de descobrir uma solução capaz de travar ou desacelerar a progressão da doença de Parkinson.
Em 2019, a NeuroSoV participou num dos concursos de capital semente (HealthCup) da UBImedical e aí arrecadou 5000€ para alavancar o projeto e 1 ano de incubação grátis na UBImedical. Atualmente, a NeuroSoV já levantou mais de 5.5 milhões € em fundos não-dilutivos, tem várias patentes concedidas (onde se inclui uma família de patentes – patente concedida em vários países).
Desde uma fase muito inicial, a incubação na UBImedical foi determinante para ajudar a equipa a transformar conhecimento científico num produto com potencial de mercado. Começando no HealthCup e depois o apoio na estruturação do plano de negócios, na validação da solução e na ligação a especialistas das áreas clínica e tecnológica permitiu à NeuroSoV evoluir de uma investigação promissora no laboratório para uma startup preparada para os desafios do setor da saúde e a internacionalização. Também a proximidade com a Universidade e o enquadramento neste ecossistema foram fatores-chave para acelerar o seu desenvolvimento, reduzir riscos e reforçar a credibilidade do projeto junto de parceiros e investidores.
– Falhar também faz parte do caminho. Qual a maior aprendizagem com algo que não correu bem?
Uma das aprendizagens é perceber que as pessoas/equipa são um fator crítico, tanto ao nível da própria incubadora como dentro das startups. Ter uma equipa multidisciplinar, com várias valências e com espírito de colaboração, criatividade e co-criação é essencial para responder às exigências do crescimento e da especialização do ecossistema, o que nos mostra a importância de investir continuamente em competências, alinhamento e cultura interna. O mesmo dentro das próprias startups, mesmo com uma boa ideia ou tecnologia sólida, quando a dinâmica da equipa não funciona, o impacto no desenvolvimento é inevitável.
Houve casos em que algumas startups optaram por não considerar recomendações estratégicas dadas em contexto de incubação e mentoria, o que reforça a ideia de que o apoio só é verdadeiramente eficaz quando existe abertura para escutar, testar e aprender.
Muito recentemente, uma das nossas startups sofreu um problema em laboratório que prejudicou seriamente a experiência em decurso. Ao conversarem comigo, sugeri usar o erro como uma possibilidade de testarem uma alternativa ao projeto. Não poderemos dar mais informações neste momento…pode estar aqui uma dessas inovações!
– Qual é o fator diferenciador da vossa incubadora? Por outras palavras, o que é que vocês têm de único que potencia o sucesso das startups que incubam?
O principal fator diferenciador da UBImedical é a sua forte ligação à universidade, à investigação científica e ao ecossistema empreendedor envolvente e também uma ampla rede de contactos. Oferecemos um ambiente altamente especializado, com acesso a conhecimento técnico, infraestruturas e redes que são difíceis de encontrar noutras incubadoras generalistas. Exemplos disto são: acesso aos laboratórios e facilities das unidades de investigação das faculdades para as spin-offs e spin-outs, facilidade de acesso a fundos ligados à I&D em parceria com a universidade, proximidade da investigação e da captação de talentos recém-formados, proximidade a um grupo de investidores regionais, facilidade de testar soluções no Hospital Universitário, ou a existência de um Centro de Apoio a Ensaios Clínicos dentro da UBImedical.
Organizamos concursos de capital semente que oferecem a todos os participantes um curso pré-pitch competition, onde todos os projetos podem afinar a sua ideia e preparar/melhorar o seu pitch e onde os vencedores recebem um ano de pré-incubação na UBImedical, entrada no programa de aceleração e capital para conseguirem alavancar o seu projeto. Para além disto, cultivamos uma cultura de colaboração e criação de sinergias entre as várias startups incubadas e promovemos vários eventos de networking entre as startups e entre estas e investidores e ou parceiros.
Há algo que devo reforçar no nosso ecossistema – o facto de operarmos todos como uma comunidade, todos se entreajudam, quer seja a procurar investidores, parceiros, a disseminarem-se, e a co-criarem.
– Que tipo de projetos ou startups estão agora à procura?
Projetos e startups de base científica e tecnológica, com forte componente de investigação e desenvolvimento, desde a fase de ideação, early stage ou scale up. Valorizamos equipas multidisciplinares, com forte motivação para criar impacto social e económico, e soluções alinhadas com desafios atuais nas áreas da saúde, biotech, health/medtech, deeptech, inteligência artificial.
– A comunidade é um dos factores que distingue uma incubadora de um centro de escritórios. Como cuidam da vossa e que planos têm para a tornar mais coesa e fértil?
Apostamos na criação de uma comunidade colaborativa, promovendo momentos de partilha, networking, mentoria e aprendizagem conjunta. Incentivamos a colaboração entre startups, investigadores e parceiros externos. Fazemos também com que as incubadas se sintam apoiadas pela incubadora, fazemos screening de programas de financiamento e damos apoio/consultoria nas candidaturas aos mesmos.
Muitas das nossas empresas precisam de tração, de experimentar no terreno, e como temos um forte conhecimento da comunidade e entidades, públicas ou privadas, facilitamos essa conexão. Para o futuro, queremos continuar a reforçar esta dinâmica com mais eventos temáticos, programas conjuntos e iniciativas que promovam a cocriação e o sentimento de pertença.
– Quais são os principais desafios para a incubação, no vosso contexto?
Um dos principais desafios é estarmos localizados num território de baixa densidade, o que exige um esforço adicional na atração de talento, investimento e parceiros. Além disso, muitas das startups são da área da saúde/farmacêuticas/dispositivos médicos, apresentando desafios específicos, como a regulação, os longos ciclos de desenvolvimento e a necessidade de validação clínica, que exigem tempo, recursos e acompanhamento especializado.
Outro dos desafios é a necessidade de captarmos empresas âncora para a região nos nossos verticais fortes, para servirem de alavanca às nossas startups.
– Querem partilhar connosco alguma novidade? Algum evento ou alguma iniciativa que devemos todos ter na nossa agenda?
Brevemente iremos avançar com a organização do HealthCup 2026 e em abril teremos a Innov Summit’26, um evento co-organizado entre a UBImedical, a UBI e o Município da Covilhã.
SOBRE OS #INCUBXDISCOVERIES
#IncubXdiscoveries é a rubrica mensal da Startup Portugal que vai ajudar-te a descobrir as incubadoras portuguesas. Que projetos incubam, como gerem a sua comunidade e que casos de sucesso tiveram e projetos futuros, são alguns dos temas abordados nestas entrevistas.
Se gostarias de conhecer melhor a UBImedical, porque gostarias de ver o teu projeto incubado nesta região ou porque queres estabelecer uma parceria, contacta a equipa da Startup Portugal através do e-mail incubadoras@startupportugal.com.
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