Sound Particles. Hollywood rendida ao som de um software português

por Ana Pimentel
Criou um software de som 3D nos tempos livres e bastou-lhe um email para conseguir apresentá-lo nos estúdios da Skywalker, em Los Angeles. Dos filmes à música e aos videojogos, a startup de Leiria está por detrás de muitos sucessos de bilheteira.
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Quando Nuno Fonseca tinha 15 anos, foi ouvir uma orquestra pela primeira vez. Estava num espaço relativamente pequeno, “com uma acústica muito boa”, e lembra-se de os violinos começarem a tocar e de perceber que não existia nenhuma gravação em estéreo que lhe pudesse oferecer aquele tipo de experiência. Ficou encantado. “Os japoneses têm a palavra ‘kando’ para explicar um bocado este tipo de experiência, que nos eleva quase a alma”, explica-nos o CEO da Sound Particles.
No escritório da startup em Leiria, conta-nos que sempre teve três grandes paixões: a tecnologia / computadores, a música / som e o cinema. Enquanto estudava, conseguiu manter “um pé nos dois mundos”: estava inscrito em engenharia no Instituto Superior Técnico, mas também frequentava aulas do Curso Superior de Composição. Quando passou para o lado de lá e se tornou professor, continuou a chegar com um braço a cada sítio: dava aulas de Engenharia Informática no Politécnico de Leiria e ensinava Tecnologias da Música na Escola Superior de Música, em Lisboa.
Por entre estes dois amores, ainda havia a sétima arte. “Apercebi-me que os efeitos visuais mais giros que vi no cinema utilizavam sistemas de partículas, uma técnica de computação gráfica em que são criados milhares de pequenos pontos que, todos juntos, criam coisas como pó, fumo, tempestades, pó de fada, etc. Achei que seria interessante criar o mesmo com o som, ou seja, criar milhares de pequenos sons que, todos juntos, criassem sonoridades absolutamente fantásticas como acontece com os efeitos visuais.”
A ideia surgiu-lhe há cerca de 16 anos, mas só começou a trabalhar nela depois de acabar o doutoramento, em 2012. E fê-lo nos tempos livres, quase como um hobby. O resultado, no entanto, foi profissional. De 2012 a 2014, criou um software de computação gráfica para a área do som. Era o seu “pet project”, diz-nos. Quando surgiu a oportunidade de viajar até Los Angeles, nos EUA, para ir a uma conferência, teve uma ideia: enviar alguns emails a pessoas da indústria a apresentar-se a si e à tecnologia em que estava a trabalhar. Com duas semanas de antecedência, não achou propriamente que fosse funcionar, mas não tinha nada a perder. Enviou.
A primeira resposta que teve não poderia ser melhor, vinha diretamente do Skywalker Sound, estúdio criado por George Lucas (“Guerra das Estrelas”). “É o maior e mais conceituado estúdio de pós-produção para cinema do mundo inteiro. Convidaram-me a ir ao Skywalker Ranch fazer uma apresentação, que fiz, e depois, no espaço de seis meses, acabei por dar palestras também na Warner Brothers, Universal, Paramount, Sony, Fox e, mais tarde, na Disney, Pixar, Apple, Google, Blizzard, Netflix, entre muitas outras”, conta-nos.
Quando viajou até Los Angeles, Nuno levava apenas um protótipo, mas foi o suficiente para cativar a atenção dos grandes nomes da indústria do cinema. Perguntaram-lhe logo quando poderiam “começar a brincar” com o software e o empreendedor pediu-lhes dois meses para “limar arestas”. Em janeiro de 2015, enviava-lhes a primeira versão. O primeiro filme que utilizou o software criado pelo engenheiro português foi o remake de “Poltergeist”, em 2015. Ainda nem sequer havia empresa, apenas talento e a muita dedicação de Nuno.
Passados dois anos, não havia volta a dar. “Encheu-se de coragem” e criou oficialmente a Sound Particles, mesmo sabendo que perderia um terço do seu salário de docente. Nos dois anos seguintes, tinha a mesma carga de trabalho na universidade, recebia menos, mas conseguiu contratar dois juniores para trabalharem com ele. Em janeiro de 2017, mudavam-se para a Startup Leiria, mas o volume de trabalho exigia outros recursos. Tinha chegado a hora de dar mais um salto.
Mas, afinal, que startup é esta?
Há um dia em que Nuno Fonseca está a fazer scroll no Facebook e vê um vídeo de uma startup francesa a construir algo que poderia vir a ser semelhante ao que tinha em mãos. Percebeu logo que não havia tempo a perder. Precisava de se apressar e isso implicava ir à procura de investidores. Falou com a Blackmagic, empresa na área da multimédia, e o interesse foi tanto que quiseram comprar a startup. “Ofereceram-me um valor com muitos zeros e foi uma daquelas alturas em que os nossos joelhos começam a tremer”, recorda. Mas a conversa ficou por ali, Nuno recusou. E pouco depois fechou um investimento de 400 mil euros com a Indico Capital Partners e a Red Angels.
Com a entrada deste investimento, a equipa cresceu para 10 pessoas, Nuno deixou o Ensino Superior e passou a dedicar-se em exclusivo à Sound Particles e os projetos começaram a somar-se. No verão de 2026, o software desenvolvido pela startup portuguesa já tinha sido usado na produção de filmes como “Dune”, “Missão Impossível”, “Oppenheimer”, “Guerra das Estrelas”, “Indiana Jones” e de séries como “Guerra dos Tronos”, “Stranger Things”, “House of The Dragon”, “Star Trek: Discovery”, “Wednesday”, entre outras.
“O facto de termos começado pelo topo, neste caso, por Hollywood, e ainda por cima pelo Skywalker Sound, que é o número um, obviamente abriu muitas portas”, diz. E tudo porque enviou um email sem saber, sequer, se seria lido. “Sou muito sortudo por poder juntar do ponto de vista profissional as minhas três grandes paixões.” E o software utilizado pela indústria cinematográfica é só uma das formas de o fazer.
Depois do cinema e da televisão, a startup portuguesa apontou à indústria dos videojogos e tem grandes empresas como a Playstation ou a Blizzard no portefólio de clientes. “O Fortnite, por exemplo, usa o nosso software, o que me dá obviamente um gozo enorme, mas é um mercado particularmente difícil do ponto de vista financeiro, porque o som é muito subvalorizado”, diz. Por isso, rumaram também à área da música, para a qual desenvolveram outras ferramentas criativas, quer para os engenheiros que fazem a mistura dos álbuns, quer para os artistas.
Nos últimos dois anos, o Grammy para melhor álbum com som 3D foi para dois artistas que “utilizaram fortemente” produtos da Sound Particles: Peter Gabriel e Justin Gray. Também o compositor francês Jean-Michel Jarre é um fã assumido do SkyDust 3D, sintetizador criado pela startup portuguesa que permite um som imersivo tridimensional, o primeiro do género do mundo. Ainda na área da música, também foi dos escritórios da Sound Particles em Leiria que nasceu uma app que ajuda a propagar o som no espaço. “Na prática, com a app, simplesmente aponto para onde quero que o som esteja”, exemplifica ao som de uma canção japonesa.
Ainda assim, o empreendedor sabia que “dificilmente seria um unicórnio a vender software ou ferramentas criativas” e começou a explorar o que poderia acrescentar ao portefólio de produtos da Sound Particles. O que identificou foi o seguinte: a indústria do entretenimento está toda a mudar para o 3D, porque esta perceção do som vindo de todas as direções “é muito mais natural e imersivo”. Só que há um problema: como é que as pessoas podem replicar esta experiência em casa?
“O que as pessoas tendem a usar cada vez mais é headphones e, embora haja algumas soluções de som 3D para headphones, deixam muito a desejar e não proporcionam uma experiência verdadeira”, diz-nos. O desafio é tal que já foram feitos mais de 100 doutoramentos na área e ainda ninguém conseguiu resolver o problema. “As Big Tech gastam milhões e milhões nesta área sem conseguirem uma solução que funcione. Mas nós, na nossa ingenuidade, achamos que nós é que vamos conseguir”, revela o CEO. Desde 2019 que a Sound Particles está a trabalhar numa solução deste tipo.
Da ideia à realidade, o que é preciso?
Para criarem a tecnologia que vai permitir recriar na perfeição a experiência de som 3D em auscultadores, juntaram várias áreas do saber como a visão computacional, a física computacional e a inteligência artificial. “Tivemos de fazer avanços em física computacional que vão além do estado da arte que existe atualmente”, conta. Mas os desafios são muitos. Para que os headphones consigam “enganar o cérebro” de quem está a usá-los, é preciso conhecerem a forma das orelhas e da cabeça de cada pessoa, por exemplo, o que dificulta bastante o processo.
Apesar de ainda não terem chegado à solução derradeira, Nuno revela que o produto que têm em mãos é o que apresenta menor erro comparado com a concorrência. E os concorrentes são de grande peso: empresas como a Dolby, Apple, Meta, Sony, entre outras. “Estamos desde 2019 com um projeto que ainda não trouxe um euro de faturação à Sound Particles, mas que nós acreditamos que tem um potencial gigantesco.”
Além das ferramentas criativas e do som 3D com headphones, outra coisa que Nuno Fonseca percebeu é que a Sound Particles podia ser utilizada para criar dados para treinos neuronais. “Se quiser utilizar inteligência artificial na área do som, para reconhecimento de voz, remoção de ruídos ou outra aplicação, ela vai precisar de quantidades massivas [de dados] e nós conseguimos exportar áudio com uma qualidade absolutamente fantástica, com todos os metadados”, conta. Isto permite-lhes, por exemplo, entrar no setor da Defesa, onde já estão a atuar com um projeto piloto pago.
No momento em que conversámos, a startup de Leiria tinha captado ao todo 4 milhões de euros de investimentos e estava em negociações com dois investidores para fecharem outra ronda ou duas. O foco estava todo no desenvolvimento da tecnologia para auscultadores, que é “altamente estratégico” para a startup. O modelo do negócio depois passará por licenciar a tecnologia a plataformas de streaming, como a Netflix ou o Spotify, de videojogos, a marcas de telemóveis ou de headphones, por exemplo. Entretanto, vão continuar a apostar no software, nas ferramentas criativas e nos datasets para inteligência artificial, que o empreendedor acredita virem a ser a principal fonte de faturação no médio prazo.
“Trabalhar numa startup é ter de fazer omelete sem ovos. Os nossos concorrentes têm ovos de primeiríssima qualidade e orçamentos completamente diferentes do nosso, mas nós teimamos em querer fazer a omelete sem ter os ovos”, diz. Pode não ter os ovos, mas as experiências que tem vivido na Sound Particles já ninguém lhe as tira. Poder entrar e conhecer os estúdios de Hollywood, conhecer pessoas que admira, estar no mesmo evento em que está o Steven Spielberg ou poder assistir à gravação de um episódio de “Big Bang Theory” são memórias que dificilmente esquecerá. “Para quem gosta de cinema, isto tem sido uma viagem absolutamente fantástica”, conclui.
SOBRE TALES FROM THE ECOSYSTEM
Todas as startups começam com uma pessoa e um problema que não conseguiu ignorar. Em Tales From The Ecosystem, fazemos duas perguntas a fundadores portugueses: afinal, que startup é esta? E o que foi preciso para passar da ideia à realidade? As respostas levam-nos da primeira faísca ao modelo de negócio, às rondas de investimento e aos mercados que ainda estão por vir, contadas pelas suas próprias palavras.
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