Innuos. Som digital de Alta Fidelidade 100% português

por Ana Pimentel
Os servidores e streamers de música da Innuos já receberam mais de 100 prémios internacionais. Amélia e Nuno transformaram uma paixão em hobby, e o hobby numa quase utopia.
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Amélia Santos e Nuno Vitorino são ambos engenheiros informáticos. Depois de terem passado pela SAP Portugal, enveredaram os dois por uma carreira internacional. Nuno optou por seguir uma área mais técnica, e Amélia foi traçando caminho em gestão. De Lisboa rumaram a Londres, cidade onde trabalharam em empresas como a Deloitte e Tesco e onde acabaram por residir durante vários anos. Pelo meio, Amélia ainda esteve na SAP Alemanha e fez um MBA na prestigiada escola francesa INSEAD, em Singapura e em Fontainebleau (França). Diversificou a geografia e a área de conhecimento.
Nos tempos livres, ouviam música em casa, uma paixão que partilhavam e da qual podiam usufruir com um bom sistema de som de Alta Fidelidade (Hi-Fi). Só havia um problema: para ouvirem música com qualidade, tinham de a ter numa versão analógica, em CD ou vinil, porque à data a que recuamos, antes de 2009, não existia nenhum equipamento no mercado que suportasse música digital em Hi-Fi. Aliás, não havia sequer um equipamento onde se pudesse apenas ouvir música em formato digital, como existiam os gira-discos ou os leitores de CD. Quem a quisesse ouvir tinha de ligar o computador ou usar um leitor de mp3. Estávamos ainda no início dos smartphones.
Nuno, que também criava coisas por hobby, encontrou as duas soluções nas suas próprias mãos: comprou algumas peças, customizou um software fácil de usar e montou um sistema que lhe resolvia o primeiro problema: centralizava toda a música que detinham num só sítio e, graças ao interface de um iPod Touch, bastava-lhe um clique para pôr todas as suas canções a ecoar pela casa. Depois, foi procurar uma solução para que o som dessas canções fosse o melhor possível.
“Começou pela parte da conveniência. Nós queríamos poder chegar a casa, tocar num botão e pôr música a tocar, sem ter de esperar que o computador arrancasse e, nessa altura, demoravam a arrancar”, conta Amélia, CEO da Innuos. Foi na mesa da sala que Nuno construiu o equipamento que os amigos cobiçavam e que, movido pela curiosidade, decidiu pôr à venda no eBay. A recetividade foi tal que em seis meses vendeu 200 equipamentos destes, todos feitos na mesma mesa da sala.
O que este primeiro equipamento fazia era simples: copiava os CD que se inseriam na drive e o software criado por Nuno encontrava os metadados associados ao mesmo, como a capa, o artista e os nomes das faixas. Entre três a cinco minutos, estava pronto e o disco saía. A estes ficheiros, juntava-se a música digital dos serviços de streaming que começavam a aparecer por essa altura, como o Spotify ou o Qobuz. “Esse foi um dos grandes catalisadores, o facto de ser muito fácil de usar”, adianta Nuno, responsável por toda a Investigação & Desenvolvimento da empresa.
Resolvido o primeiro problema, passou para o segundo, a qualidade do som que saía do equipamento. Como poderiam elevar a qualidade do que se ouvia? Começaram a investigar e perceberam que o som digital era influenciado por vários fatores, como a forma de alimentação dos equipamentos, o ruído eletrónico dentro do sistema, entre outros. “E como isto está tudo na origem, o ruído vai aumentando. Ou seja, o sinal vai sendo amplificado ao longo da cadeia de Alta Fidelidade. E um ruído que parece muito pequeno, no final, acaba por ser grande e impede a naturalidade do som”, explica Nuno. Durante cinco anos, foram trabalhando nesta ideia nos tempos livres, mas em 2014 decidiram dedicar-se a ela a tempo inteiro, mas foi preciso fazerem várias mudanças. Despediram-se e voltaram para Portugal.
Mas, afinal, que startup é esta?
Enquanto conversávamos, no verão de 2026, Nuno e Amélia põem Sara Bareilles a tocar no sistema mais recente da Innuos, o Nazaré. Das colunas sai uma versão da canção “(Sittin’ On) The Dock of the Bay”, tocada ao vivo em Atlanta, em maio de 2013. É uma experiência imersiva, como se de repente tivéssemos a artista ali connosco, num concerto privado, quase a cantar-nos ao ouvido. Para que o sinal seja “assim tão puro”, todas as peças do equipamento têm de ser tratadas como se fossem material de laboratório.
“São máquinas de alta precisão que fazem toda a parte dos sinais com o menor ruído possível e no melhor timing. Usamos componentes muito avançados, alguns usados na indústria aeroespacial, na Fórmula 1… São materiais muito avançados para ajudar com os efeitos de vibração, com o ruído eletromagnético”, adianta Nuno. Além do equipamento, o software também é concebido para minimizar danos na qualidade do som.
Quando regressaram a Portugal, escolheram o Algarve para lançar a Innuos, por motivos de licenciamento industrial. Em 2016, quando conseguiram ter pela primeira vez um produto com design de marca exclusivo, do chassi ao hardware e software, lançaram a marca. A partir daí foram inovando cada vez mais e criando novas gamas de produtos.
“Lembro-me que, em 2018, lançámos um streamer e servidor de música que estava na casa dos 5 mil euros e decidi fazer uma edição especial só de 100 unidades, que me ajudou a perceber se as pessoas já estavam disponíveis para pagar um pouco mais por um produto que tem melhor qualidade de som e se o mercado estava maduro o suficiente para continuarmos a fazer price points mais altos e investigar mais em investigação. E estas 100 unidades desapareceram muito rapidamente”, conta-nos Amélia. Foi aí que decidiram avançar com o produto topo de gama Statement.
Em 2019, lançaram uma app integrada que fazia playback, gestão de playlists, de biblioteca, de serviços de streaming, convertia CD, entre outras coisas. E tudo desenvolvido de raiz pela equipa da Innuos. A app pode ser instalada em qualquer dispositivo e sistema operativo e cada utilizador organiza a sua biblioteca como quiser. Tal como noutro interface do género, pode criar playlists e adicionar canções novas. A diferença é que, na app da Innuos, estas canções podem vir de vários sítios, incluindo de serviços de streaming diferentes, de compras digitais ou de CD que são convertidos para ficheiros digitais.
“Posso abrir a app e vejo a minha biblioteca de forma integrada, vejo a minha música e não interessa onde é que ela está. Uma está num serviço, outra está noutro e outra noutro. Não interessa”, acrescenta Nuno.
Em termos de qualidade de som, também continuaram a investir. “As primeiras gamas tinham melhor qualidade do que a ligação a um computador, mas não estavam a este nível. Continuámos a investir em investigação e isolamento, a nível da electrónica e de software, para percebermos como conseguíamos melhorar a qualidade de som num equipamento deste género, porque esse conhecimento não existia no mercado”, acrescenta a CEO da scaleup.
Os produtos foram crescendo e melhorando ao longo dos anos e, em 2025, apresentaram o Nazaré ao mundo. “Estamos cada vez mais próximos daquilo que poderá ser a utopia de conseguirmos enganar o nosso cérebro de que há ali uma banda a tocar num espaço nosso”, afirma Nuno.
No momento em que conversámos, a Innuos tinha à venda três séries de produtos, a Stream, a Zen Next Gen e a Nazaré, em mais de 200 lojas de especialidade, em 52 países. Os equipamentos de entrada de gama custavam cerca de 2.800 euros e os topo de gama 90 mil, e só podiam ser comprados em lojas físicas.
“Inovámos em muita coisa, não foi apenas no produto, mas na forma de distribuição também. Percebemos muito rapidamente que esta categoria não era compreendida por muitos distribuidores e sentimos a necessidade de estarmos mais próximos da loja e do consumidor final. Então, tomámos a decisão de distribuirmos nós na maioria dos mercados. Temos apenas sete distribuidores em países onde não se consegue trabalhar de outra forma”, conta Amélia. Entre os mercados com maior peso, encontram-se os EUA, Inglaterra, China, Alemanha, e a CEO acredita que o Japão, um dos mais recentes, vai chegar ao top cinco dentro de um ou dois anos.
E para quem é que estes produtos finais se destinam? Para quem “adora ouvir música”. É tão simples quanto isso. São audiófilos, tipicamente”, diz Amélia.
Da ideia à realidade, o que é preciso?
Em dez anos de atividade da Innuos, Amélia e Nuno nunca recorreram a investidores. Usaram capitais próprios e fizeram bootstrapping: foram crescendo à medida que a faturação também crescia. “Ao querer criar uma marca premium numa categoria que as pessoas não percebiam o que era porque ainda estava a ser criada, apercebi-me cedo que não fazia sentido ir buscar investimento externo. E até hoje não o temos, porque a nossa perspetiva é de longo prazo e de criação de uma marca de consumidor”, conta Amélia.
Quando regressaram ao país de origem, a primeira pessoa que contrataram foi um designer. Para Amélia, era essencial criarem uma marca, coisa que a empreendedora gostava que se fizesse mais em Portugal. Mas não queria criar era uma marca qualquer, queria uma marca premium. “Não temos dimensão no país para fazer coisas em volume, mas temos muito know-how, muito bons engenheiros, uma capacidade técnica que foi uma das coisas que nos levou a querer vir para Portugal. Temos essa capacidade no país em termos de recursos”, diz.
Apesar de reconhecer que criar uma marca premium em Portugal é um caminho difícil, sobretudo numa categoria de produto que ainda não existe, Amélia não desistiu. Focou-se na qualidade, consistência e em construir credibilidade, “coisas que não se conseguem acelerar”, diz. “E fizemo-lo, apesar de tudo, de uma forma muito rápida. A Innuos tem dez anos, estamos em 52 mercados e o Nazaré é considerado o streamer de referência a nível internacional em termos de qualidade de som e facilidade de utilização”, acrescenta.
Com mais de 100 prémios a nível internacional, a scaleup portuguesa aposta todas as fichas nos recursos que detém dentro de portas. Ao lado de quem se senta no escritório, em Faro, está a porta para o laboratório onde cada peça é produzida; depois estão as portas para o embalamento, para o controlo de qualidade, para o serviço de apoio ao cliente e para a distribuição. Tudo feito pela equipa que já ronda as 50 pessoas de 13 nacionalidades diferentes, algumas contratadas no seu país de origem e que mudaram de vida para trabalhar na Innuos. Só assim conseguiram alcançar a qualidade de marca que ambicionavam, conta-nos Amélia, “pensada ao detalhe” independentemente do produto.
“Começámos isto pela paixão de ouvir música. Tentámos resolver um problema que, na altura, nem sonhávamos que nos iria levar a isto”, diz-nos a responsável pela marca portuguesa. “Alta Fidelidade foi das coisas que sempre tivemos em casa. Na prática, é para quem gosta de se sentar a ouvir música. Acho que a grande diferença é essa, é para quem gosta de se sentar e ter aquela experiência de ter quase um concerto privado em casa”, acrescenta.
Além dos prémios que os produtos têm alcançado, em 2018 Amélia foi reconhecida pela Comissão Europeia com o prémio Digital4Her e a Forbes integrou-a na lista das 100 Women Founders in Europe to Follow. Em 2019, foi uma das finalistas do prémio João Vasconcelos – Empreendedora do Ano. Até à data em que conversámos, Amélia e Nuno continuavam a ser os únicos acionistas da empresa. Tudo porque adoravam ouvir música.
SOBRE TALES FROM THE ECOSYSTEM
Todas as startups começam com uma pessoa e um problema que não conseguiu ignorar. Em Tales From The Ecosystem, fazemos duas perguntas a fundadores portugueses: afinal, que startup é esta? E o que foi preciso para passar da ideia à realidade? As respostas levam-nos da primeira faísca ao modelo de negócio, às rondas de investimento e aos mercado que ainda estão por vir, contadas pelas suas próprias palavras.
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