Tales From The Ecosystem

EnhancedDX. A plataforma que quer revolucionar os diagnósticos de infertilidade

EnhancedDX. A plataforma que quer revolucionar os diagnósticos de infertilidade

por Ana Pimentel

 

Andreia Trigo nasceu com uma síndrome rara, que quis “transformar em algo positivo”. Com o marido, criou uma plataforma e um kit de testes de fertilidade para acelerar diagnósticos e ajudar a encontrar tratamentos.

Este conteúdo está disponível em inglês.

 

Para explicar o que é a EnhancedDX, temos de recuar até à adolescência de Andreia Trigo e ao momento em que um médico lhe disse que não poderia ter filhos. O diagnóstico da síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser (MRKH) que recebeu aos 17 anos só chegou depois de muitas consultas e de muita investigação sobre o porquê de a adolescente ainda não ter menstruado. Até lá, os médicos não tinham respostas. E só com recurso a anestesia geral e a uma câmara viram que Andreia não tinha útero. A primeira pergunta que a jovem lhes fez foi: “Mas isso significa que não vou poder ter filhos?”, recorda a fundadora da EnhancedDX.

Uma em cada cinco mil mulheres nascem com esta condição. “Nem é tão raro assim”, diz-nos. No início dos anos 2000, o Google ainda estava no começo, mas Andreia fez todas as pesquisas que lhe eram possíveis para se informar sobre o seu diagnóstico. Neste caminho, cruzou-se com o cirurgião plástico Godinho de Matos, no Hospital de Santa Maria, e pela primeira vez sentiu que um médico a ouvia verdadeiramente. Já com 18 anos e aluna no primeiro ano de Enfermagem, decidiu fazer a cirurgia que lhe reconstruiria o útero, mas que não alteraria o diagnóstico de infertilidade.

A intervenção foi longa e envolveu uma recuperação de pós-operatório mais longa ainda, mas resultou. Fisicamente, estava a melhorar, mas emocionalmente os desafios eram muitos. Chorava e perguntava-se muitas vezes porque estaria a passar por aquele processo, mas recebeu um conselho que a influenciou durante toda a vida. “O meu pai costumava dizer que não nos competia a nós perguntar porquê, porque um dia iríamos perceber. Ele repetia isto tantas vezes, foi tão forte que tomei uma decisão: se conseguir superar isto, não há nada na vida que eu não possa alcançar. E fez-se o clique de que iria conseguir. Não sei como, mas vou ser feliz, de uma forma ou outra. E essa decisão influenciou todos os meus passos seguintes”, conta-nos.

A partir desse momento, algo mudou. Continuou a estudar enfermagem, licenciou-se e emigrou para o Reino Unido, foi tirar um mestrado no King’s College, em Londres, e a vontade de empreender começou a surgir. Juntamente com outros colegas, criou uma empresa de formação de anestesia para médicos e enfermeiros, “que cresceu muito rápido” no Reino Unido e na Irlanda. No momento em que conversámos, já existia há 12 anos e continuava em atividade. Mas continuava a faltar qualquer coisa. “Não me sentia preenchida, tinha a empresa, era respeitada pelos meus colegas, mas algo me estava a faltar. Percebi que tinha de criar algo nesta área da reprodução humana. Em vez de esquecer o meu diagnóstico, tinha de o transformar em algo positivo. Tinha de haver uma razão pela qual nasci assim.”

Lançou-se novamente às pesquisas e concluiu que desde que a mulher tenta engravidar até receber um eventual diagnóstico de infertilidade, passa muito tempo. “Até que a mulher saiba que tem ovários poliquísticos, por exemplo, podem passar em média cinco anos”, conta. Essa demora incomodou-a. Nessa altura, também conheceu Frank Sullivan, com quem viria a casar e a lançar a EnhancedDX. Estavam ambos a fazer investigação no mesmo hospital e foi ele, com formação em tecnologia, quem a encorajou a procurar uma solução que ajudasse estas famílias. Fizeram-no juntos e, em 2021, nascia a startup que foi considerada a mais promissora do Road 2 Web Summit de 2025.

 

Mas, afinal, que startup é esta?

O desafio que Andreia queria resolver estava encontrado: como poderia acelerar os diagnósticos de infertilidade e ajudar quem queria ter filhos? Com isto em mente, ela e o marido puseram mãos à obra e criaram uma plataforma digital onde estas famílias poderiam introduzir todo o seu historial clínico. Cada resposta que viessem a inserir na plataforma tinha riscos atribuídos e, no final, as respostas eram avaliadas e os pacientes encaminhados para os passos seguintes.

Neste processo, perceberam que algumas das respostas estavam relacionadas com informação que só se poderia obter através de uma análise ao sangue. Então, em colaboração com um laboratório, criaram uma plataforma de teste que poderia ser utilizado em casa e que daria à plataforma os dados de que precisava. “As clínicas começaram a pedir-nos mais e mais testes, começámos a crescer a nossa colaboração com os laboratórios e, em 2023, lançámos a empresa também em Portugal, porque por causa do Brexit tínhamos de ter uma entidade separada.” A decisão de que Portugal seria a melhor escolha foi óbvia para Andreia.

Também nesse ano passaram para a fase seguinte do produto, a de pré-tratamento dos pacientes. “As clínicas usavam a nossa plataforma, na qual os pacientes completavam o seu historial clínico, com consentimento informado, punham os testes e ficavam com o perfil todo preparado antes de o tratamento começar. Isto era particularmente importante para as clínicas na Europa, que estão a tratar doentes de outros países. Ou seja, Portugal, Espanha, Grécia, por exemplo, têm 50% das clínicas que estão a tratar doentes do Reino Unido, França, Alemanha”, revela.

Para percebermos esta parte, temos de saber o contexto que envolve a legislação para a fertilidade. Andreia conta-nos que em determinados países, como a Alemanha, não é possível avançar para um processo de tratamento de fertilidade com doação de óvulos, por exemplo. “Uma senhora que tenha uma reserva ovárica reduzida não pode fazer tratamento de fertilidade, tem de ir ao estrangeiro”, explica.

Com a plataforma da EnhancedDX, os pacientes podem solicitar análises ao sangue, espermogramas, serologias ou outros exames genéticos no país de origem e depois a avaliação é feita digitalmente por outra clínica, noutro país. É na clínica de destino que os profissionais de saúde acedem ao relatório, que os orienta para a tomada de decisão clínica. Nestes casos, as pessoas podem começar a fazer a medicação em casa e só têm de viajar e se deslocar à clínica na altura de recolher os ovócitos ou de fazer a transferência de um embrião.

Com o avanço da tecnologia, surgiu uma nova oportunidade: a inteligência artificial agêntica. Com esta nova funcionalidade, a EnhancedDX consegue não só fazer e automatizar o pré-tratamento dos pacientes, mas também todos os outros departamentos dentro das clínicas, da recepção ao financeiro, potenciando uma maior celeridade no decorrer de todo o processo. Como? Pondo todos os departamentos a comunicar entre si e automatizando processos administrativos, que libertam mais tempo aos profissionais.

“É um processo bem mais intenso, porque vemos profundamente todos os sistemas que as clínicas utilizam para, assim, identificarmos bloqueios e, depois, utilizamos estes sistemas de inteligência artificial para os automatizar”, explica. No verão de 2026, a EnhancedDX já tinha começado a testar estes agentes de inteligência artificial em três clínicas: uma no Reino Unido, outra em Portugal e outra no Chipre do Norte. Mas as atenções estavam todas viradas para o outro lado do Atlântico e para a automação de diagnósticos.

Depois de já estarem a trabalhar desta forma com mais de 20 clínicas na Europa, em 2025 a startup portuguesa entrou no mercado norte-americano com a sua plataforma.

“O maior ênfase neste braço da empresa vão ser os EUA, porque a regulamentação na área da inteligência artificial é mais flexível do que na Europa. A maioria das coisas que fazemos, desde que sejam processos administrativos, podem ser implementadas na Europa, mas a automatização do diagnóstico ou a escrita das notas clínicas, não, porque são consideradas dispositivos médicos e isso implica um registo no Infarmed e um processo que pode custar cerca de 150 mil, 200 mil euros”, explica.

Com este modelo, o software da Enhanced sugere aos médicos, com base no historial clínico e no resultado das análises e exames, um diagnóstico para cada paciente. Além de sugerir um diagnóstico, justifica a sua escolha, mas o médico tem sempre de agir sobre essa sugestão: ou confirma / rejeita o diagnóstico ou pede mais informação sobre o mesmo. Além disso, também sugere o plano de pré-tratamento personalizado, com base nos dados recolhidos. No momento em que conversámos, a startup portuguesa já era membro ativo da American Society for Reproductive Medicine e da European Society of Human Reproduction & Embriology.

 

Da ideia à realidade, o que é preciso?

Quando conversámos, Andreia Trigo falava-nos do Reino Unido, mas viajava todas as semanas para Portugal. Ao todo, trabalhavam na startup nove pessoas, a maioria no escritório que a empresa tem em Linda-a-Velha (Oeiras), decisão que também adveio da vontade que o marido, Frank, tem de viver em Portugal. Mas a desilusão com o apetite dos investidores portugueses e também as memórias do tempo em que teve de emigrar têm adiado a mudança de Andreia para o país que a viu nascer.

Apesar de terem conquistado o prémio da Road 2 Web Summit, em 2025, no momento em que conversámos, a startup luso-britânica ainda não tinha conseguido receber investimento de fundos portugueses. A fechar uma ronda seed no valor de 2 milhões de euros, tinham assegurando 1 milhão com o fundo norte-americano Eagle Venture Fund e era também nos EUA que estavam a concentrar esforços para fechar o milhão que lhes faltava. Antes desta ronda, a startup tinha conseguido captar 300 mil euros junto de business angels do Reino Unido.

Para o futuro, o objetivo é o de continuar a crescer e atingir a sustentabilidade. “Queremos estar mais estabilizados nos EUA. Queremos avançar com esta parte da inteligência artificial agêntica e passar de três clínicas a vinte. Isso vai permitir-nos atingir o break-even, que acho que hoje é mais importante nas empresas do que antigamente. Antes, as empresas conseguiam estar sem ter lucro durante muitos anos”, diz.

Sobre o trabalho que têm vindo a fazer com as clínicas europeias, há números que comprovam resultados. No momento em que conversámos, a EnhancedDX sabia que tinha contribuído para o nascimento de, pelo menos, 39 bebés. Perdem o rasto a muitos dos pacientes, mas há outros com quem acabam por manter contacto durante mais tempo, porque, durante o processo, recorrem a uma psicóloga que faz parte da equipa da startup.

“Há histórias muito desafiantes, porque são pessoas que já passaram por muitos anos sem conseguirem engravidar. Na nossa empresa, há a possibilidade de a pessoa ter consultas de psicologia a um valor simbólico, a qualquer momento do processo, porque receber um diagnóstico de uma reserva ovárica diminuída não é o mesmo que receber umas análises do médico a dizer que o colesterol está elevado”, diz. Agora, sempre que um bebé EnhancedDX nasce, toca-se um sino no escritório de Linda-a-Velha.

Para o futuro, a enfermeira empreendedora gostaria que o produto da EnhancedDX fosse adotado por mais clínicas, para que aumentasse a sua eficiência e que, com essa eficiência, mais pessoas conseguissem aceder ao tratamento de que precisam. “Sabemos que apenas 2% das pessoas que precisam de tratamento, conseguem aceder-lhe. Portanto, se houver mais espaço na clínica para tratar pessoas sem ter de aumentar o número de pessoal pode ser que o custo diminua e se torne mais acessível”, conclui.

 

 

SOBRE TALES FROM THE ECOSYSTEM

Todas as startups começam com uma pessoa e um problema que não conseguiu ignorar. Em Tales From The Ecosystem, fazemos duas perguntas a fundadores portugueses: afinal, que startup é esta? E o que foi preciso para passar da ideia à realidade? As respostas levam-nos da primeira faísca ao modelo de negócio, às rondas de investimento e aos mercados que ainda estão por vir, contadas pelas suas próprias palavras.

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Startup Portugal Team • Outubro 8, 2026

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