#IncubXdiscoveries

“Não acompanhamos apenas projetos, acompanhamos pessoas”: o que move a StartUp Barreiro

“Não acompanhamos apenas projetos, acompanhamos pessoas”: o que move a StartUp Barreiro

Na edição deste mês de #IncubXdiscoveries, vamos até à StartUp Barreiro, a incubadora municipal do Município do Barreiro, para perceber como se constrói apoio próximo, com foco e consistência, em diferentes fases do percurso empreendedor. Falámos com Nádia Leitão, Managing Director, sobre o modelo de incubação, desafios e aprendizagens, e o que faz a diferença quando o objetivo é apoiar não só projetos, mas pessoas.

Este conteúdo está disponível em inglês.

 

Como surgiu a StartUp Barreiro? Que tipo de projetos incubam?

A StartUp Barreiro surge de uma estratégia do Município do Barreiro para criar condições reais de apoio ao empreendedorismo e à inovação no território. A incubadora municipal foi inaugurada em 2022 com a missão clara de transformar ideias em projetos viáveis, sustentáveis e com impacto económico e social. Desde a sua criação, acolheu mais de 110 projetos, envolvendo mais de 140 fundadores e cofundadores, o que resultou na constituição de 28 empresas e na criação direta de 267 postos de trabalho. Incubamos projetos em diferentes fases de desenvolvimento, desde a ideia à fase de crescimento.

 

Em que consiste o vosso modelo de incubação?

O modelo de incubação da StartUp Barreiro assenta na disponibilização de um conjunto estruturado de oportunidades de apoio ao desenvolvimento dos projetos, cabendo a cada empreendedor definir o seu ritmo, prioridades e nível de envolvimento. A incubadora oferece acompanhamento através de reuniões individuais, momentos de partilha entre empreendedores, mentorias com especialistas, um plano de formação contínuo com sessões mensais, eventos de networking e oportunidades de contacto com investidores e business angels.

Este modelo pressupõe uma postura ativa por parte dos empreendedores. A StartUp Barreiro cria as condições, abre portas e disponibiliza ferramentas, mas o verdadeiro progresso resulta da iniciativa, do foco e do trabalho consistente de quem escolhe empreender. A incubação é, por isso, um espaço de apoio e capacitação, onde cada projeto constrói o seu próprio caminho.

 

Conta-nos a história de uma startup que tenha marcado a incubadora? E onde é que a incubação convosco fez a diferença?

Ao longo do percurso da StartUp Barreiro, houve muitas startups que nos marcaram, cada uma à sua escala e no seu momento. Não há uma única história, há várias, porque vivemos os projetos de forma muito próxima, partilhando as dificuldades, as dúvidas, as conquistas e as vitórias dos empreendedores.

Um exemplo muito especial é a Trustful Journey. Chegou até nós apenas como uma ideia, numa fase muito inicial, e desde então temos acompanhado todos os seus passos. Estivemos presentes nas reuniões, nos eventos, nos momentos de preparação, nas decisões difíceis e também nos momentos de celebração. Acompanhámos a fundadora em palcos como o Web Summit, integrámos a equipa nos desafios internacionais e vimos o projeto ganhar forma, consistência e reconhecimento. Mais do que o crescimento do negócio, marcou-nos a entrega, a perseverança, a paixão pelo trabalho e a forte identificação destas empreendedoras com o território e com a incubadora. É um projeto que cresceu connosco, mas sobretudo porque nunca desistiu.

No fundo, o que faz a diferença na incubação da StartUp Barreiro é esta relação próxima. Não acompanhamos apenas projetos, acompanhamos pessoas. Vivemos as dores e as vitórias dos empreendedores, celebramos os progressos e estamos presentes quando as coisas não correm como esperado. E é isso que, para mim, torna este trabalho tão especial: crescer com eles, aprender com eles e acreditar nos seus sonhos tanto quanto eles próprios acreditam.

 

Falhar também faz parte do caminho. Qual a maior aprendizagem com algo que não correu bem?

Uma das maiores aprendizagens ao longo deste percurso foi perceber que nem sempre existe um alinhamento claro entre o papel da incubadora e as expectativas dos empreendedores. Em alguns casos, surgem projetos que encaram a incubadora como alguém que deve executar o trabalho por eles – criar contactos, definir estratégias ou tomar decisões – quando o nosso papel é, acima de tudo, orientar, mentorar e capacitar.

Também aprendemos que é fundamental trabalhar desde cedo as expectativas em relação ao investimento e aos resultados. Muitos empreendedores chegam com a ideia de que o crescimento é rápido e linear, ou que o investimento surge de forma quase automática, quando na realidade empreender exige tempo, validação, foco e muito trabalho consistente.

Do lado da incubadora, reconhecemos que, por vezes, fomos excessivamente disponíveis. Na vontade de apoiar, acabámos por fazer mais do que devíamos, o que pode atrasar a autonomia do empreendedor. Com o tempo, aprendemos que apoiar não é resolver, é ajudar a pensar, a decidir e a assumir responsabilidades.

Outra aprendizagem importante foi perceber que nem todos os empreendedores querem crescer da mesma forma. Alguns procuram escalar rapidamente, outros querem consolidar impacto local ou crescer de forma mais controlada. Quando esse desalinhamento não é identificado a tempo, pode gerar frustração de parte a parte.

 

Que tipo de projetos ou startups estão agora à procura?

No último ano, o foco da StartUp Barreiro tem estado cada vez mais direcionado para projetos de base tecnológica, acompanhando a maturidade do ecossistema e iniciativas como o Barreiro Digital. Procuramos startups que integrem tecnologia aplicada, soluções digitais ou inovação tecnológica com impacto real, independentemente do setor onde atuam.

Em termos de estágio de desenvolvimento, não nos limitamos apenas a projetos em fase de ideia. Apoiamos tanto projetos em fase inicial como startups já validadas, em crescimento ou em fase de consolidação, onde a incubadora pode acrescentar valor ao nível da estruturação estratégica, do posicionamento e, sobretudo, do acesso à rede de parceiros e investidores. Valorizamos equipas comprometidas, com visão clara e abertura para trabalhar o projeto de forma estruturada, seja com impacto local, nacional ou internacional. O que procuramos não é um estágio específico, mas projetos onde o acompanhamento da incubadora possa efetivamente fazer a diferença no próximo salto de crescimento.

 

A comunidade é um dos factores que distingue uma incubadora de um centro de escritórios. Como cuidam da vossa e que planos têm para a tornar mais coesa e fértil?

A comunidade é um elemento central na forma como a StartUp Barreiro funciona. Desde o início, procurámos criar um ambiente de proximidade, e isso reflete-se até na forma como o espaço está organizado. O gabinete da coordenação está no meio do cowork, precisamente para facilitar o contacto diário, a conversa informal e a relação próxima com os empreendedores. Acreditamos que muitas ligações e colaborações nascem nesses momentos menos formais.

Garantimos uma programação regular de formações, encontros mensais e momentos de networking, que procuram responder às necessidades dos empreendedores e fortalecer a comunidade. Ainda assim, este é um dos nossos maiores desafios. Existe uma vontade expressa de participar e de pertencer a uma comunidade ativa, mas a adesão nem sempre acompanha essa expectativa. A gestão do tempo, as prioridades dos projetos e as exigências do dia a dia acabam muitas vezes por afastar os empreendedores dos próprios momentos que ajudam a criar essa ligação.

 

Quais são os principais desafios para a incubação, no vosso contexto concreto?

Um dos principais desafios prende-se com o contexto regional e com a necessidade constante de contrariar a ideia de que a inovação e o empreendedorismo mais ambicioso só acontecem nos grandes centros urbanos. Trabalhar fora desses centros implica um esforço contínuo de afirmação, de criação de oportunidades e de ligação a redes externas, para garantir que os projetos incubados têm acesso ao mesmo tipo de informação, contactos e visibilidade.

Outro desafio está relacionado com a diversidade dos projetos que acolhemos. Trabalhamos áreas muito distintas – tecnologia, turismo, comércio, cultura, criatividade e sustentabilidade – e isso exige um acompanhamento flexível e adaptado, capaz de responder a necessidades muito diferentes, sem perder coerência no modelo de incubação.

A dimensão da incubadora e o seu caráter municipal trazem também desafios próprios. Por um lado, permitem proximidade e rapidez na articulação com diferentes serviços; por outro, obrigam a uma gestão cuidada de recursos, prioridades e expectativas, tanto por parte dos empreendedores como do próprio ecossistema.

Por fim, há um desafio transversal que atravessa toda a incubação: encontrar o equilíbrio entre apoiar e exigir. Criar condições, abrir portas e acompanhar de perto sem retirar responsabilidade aos empreendedores é um exercício permanente. A incubação só faz sentido quando potencia autonomia, capacidade de decisão e crescimento sustentável, e esse equilíbrio exige atenção constante.

 

Querem partilhar connosco alguma novidade? Algum evento ou alguma iniciativa que devemos todos ter na nossa agenda?

Convidamos todos os interessados a acompanhar as iniciativas em curso e as próximas atividades através do nosso site, onde partilhamos regularmente as novidades e oportunidades disponíveis:
https://www.startupbarreiro.pt/iniciativas/

 

ABOUT #INCUBXDISCOVERIES

#IncubXdiscoveries é a rubrica mensal da Startup Portugal que vai ajudar-te a descobrir as incubadoras portuguesas. Que projetos incubam, como gerem a sua comunidade e que casos de sucesso tiveram e projetos futuros, são alguns dos temas abordados nestas entrevistas.

Se gostarias de conhecer melhor a StartUp Barreiro, porque gostarias de ver o teu projeto incubado nesta região ou porque queres estabelecer uma parceria, contacta a equipa da Startup Portugal através do e-mail incubadoras@startupportugal.com.

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Startup Portugal Team • Janeiro 30, 2026

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