Tales From The Ecosystem

OneShot. O assistente que quer resolver as dores dos recrutadores

OneShot. O assistente que quer resolver as dores dos recrutadores

por Ana Pimentel

É bióloga, programadora, nadadora de alta competição e empreendedora. Ana Neto sabia que queria ter um negócio seu e não parou até criar a inteligência artificial que ajuda empresas a contratar.

Este conteúdo está disponível em inglês.

 

Ana Neto foi atleta de alta competição durante 15 anos. Começou a nadar aos cinco e só parou quando tinha vinte e dois. Foi recordista nacional, fez parte da seleção portuguesa e habituou-se a crescer com muitas horas dedicadas ao treino, que tinha de conciliar com a escola e com a vida social típica de uma adolescente. “Acho que me deu um sentido de disciplina e de organização que me permite fazer muita coisa numa hora. E isso é muito a base daquilo que sou”, conta-nos.

A educação que teve acabou por levá-la mais para as disciplinas de ciências e, na universidade, decidiu estudar Biologia. Quando conversámos, confessou que não é a área com que mais se identifica, o que a levou a querer explorar, mais tarde, atividades mais artísticas: teve aulas de canto, tem uma banda de rock e, por isso, também podemos vê-la em cima de um palco a dar um concerto. Pelo meio, entre todos os interesses e desafios, criou e gere sozinha uma startup tecnológica que usa a inteligência artificial em processos de recrutamento, a OneShot. “Gosto muito de ser desafiada, de crescer e de ver a minha própria superação pessoal”, diz.

Não é por isso de estranhar que Ana tenha escolhido ser empreendedora. Gosta de ter autonomia e liberdade para lidar com os problemas e soluções, algo que seria difícil de encontrar se seguisse uma trajetória mais tradicional. Durante muito tempo, não sabia bem por onde poderia começar. Foi estudar Biologia, mas nunca trabalhou na área. Em vez disso, foi para uma agência de marketing e começou a aprender a programar sozinha. O caminho começou a fazer-se pelas tecnologias e aconteceu a epifania: “Se quero ser empreendedora, faz todo o sentido ter uma skill adaptável a todo o tipo de negócios”. A programação dava-lhe essa versatilidade.

Passou por várias empresas, startups, pequenas agências e, em 2019, arriscou e abriu uma agência de software, onde esteve durante cinco anos. A experiência de ter a sua própria agência já se aproximava do sonho, mas ainda faltava qualquer coisa: Ana queria ter um produto que fosse seu, algo que pudesse criar de raiz e fazer crescer. Decidiu, então, que faria uma pausa e que tiraria um MBA. “Comecei a ouvir, a prestar atenção ao que as pessoas andavam a dizer à minha volta, à procura de um problema para resolver”, conta.

Um dos colegas de Ana no MBA queria contratar um júnior para a sua startup, mas não estava a conseguir fazê-lo sozinho. Pediu-lhe ajuda com o anúncio e processo de seleção e, em dois dias, receberam 300 candidatos. “Tivemos de andar ali nas entrelinhas a tentar perceber quem eram as pessoas com a atitude certa, porque era uma startup, era preciso ser alguém com muita vontade de aprender. E dei por mim a tentar ver como pensavam, se tinham outros projetos, se tinham feito outras coisas na faculdade, não sei. E acho que foi nesse momento que comecei a pensar que teria de haver uma forma melhor de fazer aquilo.”

Pensou e encontrou-a. A OneShot é o projeto com o qual Ana Neto quer resolver os desafios iniciais dos empregadores. Como podem, entre centenas de candidaturas, fazer uma pré-avaliação rápida de quem poderá ser um bom fit para o cargo / empresa? Os recrutadores precisam de ter, pelo menos, cinco minutos com os candidatos, falar com eles ou vê-los em vídeo, para extraírem alguma informação extra, concluiu Ana. Mas, no formato tradicional, isso não é exequível. Seria um produto tecnológico capaz de resolver esta questão? Sim, com o assistente de inteligência artificial certo.

 

Mas, afinal, que startup é esta?

Na OneShot, o processo começa todo com uma conversa entre o recrutador e o assistente de inteligência artificial criado por Ana Neto, que tenta compreender ao máximo o contexto da vaga e o tipo de pessoa / perfil que a empresa quer contratar. Com a informação necessária toda reunida, o assistente passa para a segunda fase: prepara um desafio de perguntas que serão apresentadas em vídeo aos candidatos. Nesta fase, o recrutador pode intervir e pedir ao assistente de IA para mudar as perguntas ou dar-lhe outras indicações.

Quando fecham o desafio, o assistente gera um link que é enviado aos candidatos. Estes terão, depois, de responder às perguntas oralmente. No momento em que conversámos, a plataforma só fazia captação de som, mas a ideia é que também possa captar a imagem. Terminado o desafio, há outra inteligência artificial que vai fazer o cruzamento entre a informação que o recrutador deu sobre a vaga e as respostas que recebeu dos candidatos. No final, classifica o candidato (todas as pessoas que concorrem ao mesmo emprego são avaliadas tendo em conta o mesmo conjunto de dimensões) e gera um relatório que envia para o recrutador.

A interface onde decorre o desafio é muito semelhante à que é usada nos programas mais comuns de videoconferência, mas, em vez de um rosto, o que o candidato vê é uma pergunta no ecrã. “Não temos um agente a falar com a pessoa, é assíncrono. E isso foi uma decisão propositada, para as pessoas não estarem a falar com uma IA. O candidato vê uma pergunta de cada vez e responde em voz alta, como se estivesse a pensar em voz alta”, explica a empreendedora.

O facto de a startup só recolher o som da plataforma também não é por acaso. O objetivo é evitar que os candidatos sejam selecionados por motivos alheios às respostas. O facto de usarem apenas o som ajuda o recrutador a lidar apenas com a informação textual que recebe. “Na nossa análise, retiramos o máximo de coisas que possam identificar o candidato, a sua aparência, género, o que seja. E temos tido bons resultados com isso, combatemos um pouco alguns preconceitos que possam existir”, revela a fundadora.

Quando os relatórios com as classificações dos candidatos são entregues aos recrutadores, o trabalho da OneShot termina. Depois, são eles que asseguram a fase seguinte, que fazem as entrevistas e que chegam à tomada de decisão. “O nosso relatório acaba também por agir como um guia para a entrevista, porque já é possível ver no relatório se a pessoa é muito forte em determinado ponto, mas menos noutro”, adianta.

Para que tudo isto funcione, Ana Neto criou várias categorias de vagas de trabalho, como as de tecnologia, marketing, vendas, entre outras. Desta forma conseguiu criar uma base de dados e de perguntas que são úteis, mas também usa o feedback dos testes piloto que tem vindo a fazer para afinar cada vez mais o algoritmo. “As perguntas são cada vez mais afinadas para cada pessoa”, revela. A isto junta-se também o feedback que vai recebendo dos recrutadores.

Apesar de o core do negócio estar centrado nas empresas (são elas que contratam a OneShot para as ajudar nos processos de recrutamento), a empreendedora também pensou em quem procura novos desafios profissionais. Para os candidatos, a startup disponibiliza três ferramentas: a primeira permite-lhes cruzarem o seu CV com a vaga de emprego a que se estão a candidatar, recebendo da plataforma feedback sobre as competências em falta e sugestões de melhoria; a segunda e a terceira são mais focadas na preparação para as entrevistas: a que será feita com os recursos humanos (e na qual o candidato terá de falar um pouco sobre si e o seu percurso), e a que avalia o candidato de um ponto de vista mais das competências técnicas. Estes dois serviços eram, no verão de 2026, gratuitos, mas para o futuro Ana previa mudanças: “Provavelmente vamos oferecer algumas destas ferramentas gratuitas ou, então, oferecer a primeira tentativa e depois, para mais tentativas ou feedback, colocar uma pequena subscrição”, acrescenta.

No início, o foco eram mais as startups, porque pela sua génese têm uma estrutura mais reduzida para lidar com volumes grandes de candidaturas. Começou com um modelo de subscrição pequena, mas depressa percebeu que o caminho não seria por aí. Passou para as scaleups e para as agências de recrutamento, que já têm muito mais volume e capacidade de dar feedback.

 

Da ideia à realidade, o que é preciso?

Quando conversámos, Ana estava sozinha na startup. Foi ela quem construiu o produto, lançou a startup e tratava de todos os contactos comerciais. Durante algum tempo, trabalhou em equipa com uma cofundadora, mas foi temporário. Voltou a ser solopreneur, apesar de estar em conversas com uma outra startup sobre uma eventual parceria.

Além de ser o rosto, a mente e a voz da OneShot, a empreendedora continua a trabalhar como programadora freelancer e é ela quem investe na sua startup. Como a financia? Com capitais próprios, com o que vai faturando de outros trabalhos. “Gostava de conseguir fazer bootstrapping, para mim o investimento só faz sentido se for um investimento estratégico, de alguém que tem contactos na área ou conhecimentos”, diz.

Para a fundadora, o foco não estava em encontrar quem investisse, mas em procurar alguém para a equipa que conseguisse assegurar o desenvolvimento do negócio, a comunicação e as vendas. O caminho mais solitário que tem vindo a percorrer fê-la perceber que o que faz mesmo bem é construir e que toda a parte de comunicar e de ir para o mercado se torna muito desafiante. “Gostava muito de ter uma equipa e de encontrar um cofundador. Pela minha experiência, acredito que é uma coisa que tem de ser feita com calma e cuidado, porque é uma relação que, se correr bem, vai durar muito tempo e tem de haver um bom alinhamento.”

Quando conversámos, a OneShot estava a testar as suas ferramentas em vários projetos. Primeiro, testou-as com startups, depois com scaleups e “no meio disto tudo”, encontrou uma agência de recrutamento nas Filipinas com 500 pessoas com quem está a fazer um piloto. “E é para aí que temos estado a apontar um pouco agora, para as agências de recrutamento, mas em Portugal não tem sido fácil, há muita resistência à modernização na área dos recursos humanos”, adianta. E por isso, voltou-se para outros mercados na Europa que falam a língua inglesa.

“Para mim, a OneShot é uma ideia de que gosto, que quero desenvolver, mas o que eu queria mesmo era entrar neste mundo e começar a aprender. E nós só aprendemos a fazer coisas. Passei tantos anos da minha vida a preparar-me, a pensar, e só quero entrar. Quero levar a OneShot o mais longe possível e aprender o máximo que conseguir”, conclui a bióloga, autodidata, programadora, nadadora, vocalista de banda de rock. E empreendedora, sobretudo empreendedora.

 

 

SOBRE TALES FROM THE ECOSYSTEM

Todas as startups começam com uma pessoa e um problema que não conseguiu ignorar. Em Tales From The Ecosystem, fazemos duas perguntas a fundadores portugueses: afinal, que startup é esta? E o que foi preciso para passar da ideia à realidade? As respostas levam-nos da primeira faísca ao modelo de negócio, às rondas de investimento e aos mercados que ainda estão por vir, contadas pelas suas próprias palavras.

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Startup Portugal Team • Outubro 22, 2026

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